BEM VINDO AO MANIA COLORIDA

26 de novembro de 2008

LUZ E SOMBRA...

AMSBERG, Dagmar. "A concha fechada", 2002.
A luz incidente sobre os objetos observados pelo artista é que define toda a forma e volume que dará à sua criação. As texturas, nuances de cor ou tonalidades empregadas para ressaltar detalhes mínimos, mas de importância fundamental na construção da estética do desenho.
Onde e como utilizar um grafite mais denso, macio ou seco? Onde definir mais as linhas de contorno ou clarear a fim de permitir a visualização da luz e portanto, todas as formas que darão intensidade real ou não ao objeto observado?
O lápis e o papel à espera da ação do artista!
A ação do artista, por sua vez, influenciada pelo seu íntimo dá o toque final quanto à aparência da obra. Que sensações ela produzirá? Angústias? Levezas? Claridades? Obscuridades? Paz? Intensidade? Beleza? Poesia?
É muito interessante e curioso observar as reações das pessoas frente à uma pintura, um desenho ou uma escultura e perceber as particularidades dos elementos como uma simbiose com a alma humana. Cada pessoa reage à sua maneira e expressa-se com as suas individualidades. E o artista? O que ele quis dizer? O que ele sentia no momento de sua criação? O que afinal pretendia no momento do nascimento de sua obra? Quando a idealizou?
Para fazer esta análise existem os críticos de arte. Não faltam intermináveis escritos e estudos que se referem às intenções do artista em relevância com seu contexto social e político...
Será que algum dia, alguém parou para pensar que quanto mais se complica, menos se entende? E quanto menos se entende, mais nos afastamos e afastamos as pessoas do que realmente interessa? A ARTE por si só?
Será que também em algum momento alguém parou para se questionar se o que os críticos dizem e afirmam é a realidade? Será que o artista "X" ou "Y" sentiu mesmo tal revolta ou amor quando pintou "A OBRA" caríssima e famosíssima?
Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a Arte não é uma forma alienada de retratação da realidade. Ela não precisa necessariamente retratar a realidade, ou ser fiel à alguns padrões estéticos ligados às academias. O uso formal das técnicas e dos instrumentos é apenas uma ferramenta a mais, que permite aprimorar técnicas a fim de tornar a estética mais apropriada, requintada, moldada e adequada aos olhos dos que apreciam o belo.
Contudo, a beleza está um pouco além destes conceitos. O "belo" aos olhos, nem sempre é o "belo" ao coração. Talvez uma simples combinação de cores primárias encontradas numa "audaciosa" criação infantil emocione muito mais do que um Rembrant. E isto não significa que necessariamente deva haver desprezo pelos grandes artistas. Ao contrário, a admiração por eles aumenta ainda mais quando se observa atentamente e se considera os primeiros passos na arte. Isso mesmo! Quando o indivíduo ainda está em formação, construindo sua identidade e portanto, mais suscetível às emoções e sem "vícios" sociais, sem "influências" artísticas, sem "preconceitos" de qualquer natureza, sem "vergonha" de ser feliz. É nesta fase de nossa existência que mais produzimos intuitivamente. Usamos de toda a nossa autenticidade e liberdade a fim de expressar, dizer, registrar, mostrar aos outros os sentimentos, as histórias que ainda não conseguimos escrever.
A LINGUAGEM pura e incocente das crianças, revela um grau de sensibilidade artística de nível estético impressionante, pois ainda não está contaminado pela luz e pela sombra impostas no decorrer da existência humana.
Como perceber isso? É preciso disposição e olhar muito atento para perceber os "grandes" significados do desenho infantil.
Não é sem sentido que Pablo Picasso escreveu:
"Antes eu desenhava como Rafael, mas precisei de toda uma existência para aprender a desenhar como as crianças."
Os críticos podem analisar as obras e seus grandes artistas considerando as técnicas, os materiais, a estética, enquadramentos e fatos históricos que podem ou não ser o alicerce temático da obra de arte. Isto é formalmente aceitável dentro de nossa cultura que necessita sempre da confirmação científica para os fatos, para as produções de qualquer natureza. De certa forma é até fácil perceber, ler e sentir uma obra de arte perfeita em seus padrões estéticos.
Difícil é entender, compreender e chegar à uma definição concreta quanto ao pensamento que a criança articula no momento da criação de sua "obra" de arte. Não é à toa que existem inúmeras publicações onde o objeto de estudo é justamente o desenho da criança, a produção artística infantil. Percebam, isto É UM OBJETO DE ESTUDO.
Entender o que leva uma criança a se tornar um grande artista ou não. E se chegar a ser um grande artista, o que a motivou, como organizou seus processos mentais para isso?
Talvez não seja tão relevante saber se esta ou aquela criança ou adolescente pretendem seguir pelos caminhos da Arte. Penso que seja muito mais importante saber se a Arte os toca, os perturba e os instiga a pensar sobre ela com uma mente menos inquiridora e mais aberta à diversidade cultural, estética, de linguagens e informação, das inúmeras estéticas e possibilidades de apresentação desta "ARTE". Se é polêmica, escandalosa, chocante, bela, infantil, simples, complexa... não importa. A beleza e o significado real está nos olhos e no coração de quem a vê, percebe, escuta e sente.
O papel da Arte na vida das pessoas é a chave de tantos questionamentos, por vezes até céticos demais.
À Luz e à sombra do conhecimento científico construído em milhares de anos, onde realmente a Arte se encaixa? Mais uma ciência? Uma excentricidade? Uma ocupação de pessoas que ainda não encontraram seu verdadeiro rumo? Uma área do conhecimento? Mas... se o é, qual a sua pretensão?
Considerada ainda como uma área do conhecimento "menor" do que outras, afinal, quando nos deparamos com questionamentos do tipo: "vai cair na FUVEST?", A SOMBRA recai imediatamente sobre séculos de reflexão acerca do que realmente é importante na existência humana. Acúmulo de conhecimento científico, ou capacidade de ainda emocionar-se com um inocente e trêmulo traço infantil que insiste em nascer, insiste em se mostrar e é a pura comprovação de que o ser humano, ao longo de sua vida é constantemente "castrado" em suas expressões, escolhas, liberdade, igualdade, direitos de ser ele mesmo, induzido a seguir moldes sociais e adequar-se sem expontaneidade fechando-se dentro de uma concha sem ter o privilégio de desfrutar sem restrições do potencial mais rico que o homem racional, detentor do polegar opositor possui: A CAPACIDADE CRIADORA que se manifesta como necessidade humana, seja para produzir arte, seja para manter-se ativo dentro da sociedade ou mesmo para alimentar sonhos ou objetivos de vida. mesmo tendo de "driblar" a luz e a sombra do cotidiano.

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