BEM VINDO AO MANIA COLORIDA

24 de dezembro de 2008

FESTIVAIS LITERÁRIOS

CIDADES LITERÁRIAS

Por Denise Mirás
Revista da Cultura
Edição 17 - dezembro de 2008



Em muitas cidades do interior do Brasil, ainda resistem comportamentos e hábitos de décadas e
até mesmo de séculos passados que servem de inspiração para qualquer visitante – principalmente se forem escritores e leitores. É por conta dessa sinergia que os festivais literários acabaram por se consolidar e se espalhar pelo mundo, atraindo uma boa quantidade de turistas. Em geral, os eventos podem variar em formatos, mas têm em comum o fato de acontecerem em cidades pequenas, muito charmosas e com forte carga histórica.Se a gaúcha Jornada Nacional de Literatura vem desde 1981, foram nestes anos 2000 que muitas outras cidades se animaram a organizar festivais, pontuando todo o Brasil: da praia de Porto de Galinhas à colonial Ouro Preto, dos arredores sertanejos de Fortaleza ao calor de Jaguariúna, ou ao frio de São Francisco Xavier, na Serra da Mantiqueira, em São Paulo... Freqüentador assíduo dos eventos, Ignácio de Loyola Brandão resume: “O de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, é o mais importante. Paraty é o mais badalado”, diz o ganhador deste ano da 50ª edição do Prêmio Jabuti – “o grande, e com um livro infantil!” – por conta de O menino que vendia palavras. Mas, na opinião de Marcelino Freire, autor de EraOdito, a multiplicação dos encontros vem como repercussão da FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), “nascida” em 2003.O festival de Paraty faz parte de um fenômeno de expansão desses eventos, que não é exclusividade do Brasil. A Câmara Brasileira do Livro contabiliza, entre festivais e feiras, mais de 20 eventos literários pelo país neste ano. Ao redor do planeta, há outros 50, em diversas localidades da Europa e dos Estados Unidos. Há ainda pontos famosos como os de Mumbai, na Índia; Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos; Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia; ou Seul, na Coréia do Sul.APROXIMAÇÃO“Os festivais proporcionam uma aproximação efetiva entre escritores e leitores. Em Paraty é uma celebração, no dia-a-dia, nos encontros pelos cenários da cidade. Fala-se muito em declínio no número de leitores, mas não concordo. Ou os festivais podem mesmo ser uma reação a isso. No Brasil, nos últimos anos, têm surgido mais editores, com a diversificação de títulos”, afirma Flávio Moura, curador da FLIP deste ano. Didito Torres, da Associação Casa Azul em Paraty, coordenador de produção local da festa e nascido na própria cidade – que hoje soma 33 mil habitantes –, diz que o município se transforma. Pousadas, lojas e restaurantes ficam lotados e a população local, além de mais emprego, ganha motivação para se interessar mais pela leitura. Ele destaca o trabalho em escolas e pontos com livros pela zona rural que contribuem para a educação literária da população.Pelo lado dos freqüentadores, Sérgio Roveri, jornalista e autor de teatro – escreveu os famosos Abre as asas sobre nós e Andaime – diz que são vários os pontos positivos da FLIP, como organização, pontualidade, possibilidade de encontrar os autores, que lá não estão “blindados”, mas sim nos cafés, nos barzinhos. Além do convívio literário, da integração e do ambiente festivo, é possível “desestressar”, fazendo tudo a pé, sem trânsito nem pressa, porque os endereços estão lado a lado. “Não é um evento sisudo, para iniciados, ao contrário. E, para mim, o melhor de lá está nas ótimas surpresas que encontramos, em meio aos autores famosos e outros nem tanto”, afirma.O escritor Marçal Aquino, autor de Cabeça a prêmio, Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios e roteirista de Os matadores e O invasor, concorda. “Sempre fui favorável à idéia da aproximação escritorleitor, tanto que, durante mais de uma década, visitei escolas pelo Brasil inteiro, o que me ajudava a conhecer quem era o público dos livros juvenis que escrevia na época, o que pensavam esses leitores e até mesmo o que esperavam de um livro”, diz Marçal. “E hoje, diante da situação de verdadeira indigência da literatura, qualquer iniciativa que permita sua divulgação e a aproximação leitor-livro merece ser prestigiada”.
POR TODO O BRASIL
Aquino foi um dos convidados de mais um formato de festival aberto este ano: o da Mantiqueira, realizado em São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos, na região do Vale do Paraíba, em São Paulo. O evento fez parte de um projeto maior da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, como explica André Sturm, coordenador da Unidade de Fomento e Difusão. “Nossa opção foi por uma cidade pequena e acolhedora, com uma estrutura mínima de hotéis e restaurantes e vocação cultural. E escolhemos o outono para valorizar o ambiente de montanha”, explica Sturm.Sidnei Pereira da Rocha é quem está à frente da Biblioteca Solidária, montada por ele mesmo e que foi um dos pontos de encontro do Festival da Mantiqueira. “Ficamos preocupados com a quantidade de pessoas que viriam, mas foi tudo muito tranqüilo. A organização até distribuiu toucas, cachecóis e capas, com o logotipo do Festival, para o caso de frio e chuva. A biblioteca teve filas imensas na frente, antes de abrir. Não parei das oito da manhã às nove da noite, nem para comer. Agora, a cidade já está ansiosa pela próxima festa.”Ignácio de Loyola Brandão, que em 1968 lançou Bebel que a cidade comeu e iria estourar em 1981 com Não verás país nenhum (com uma São Paulo de ruas tomadas por ferro-velho, resultado do engarrafamento total), há pelo menos 25 anos vem percorrendo festas literárias pelo Brasil. Para ele, “a mais séria e de maior alcance é a de Passo Fundo (Jornada Nacional de Literatura, em sua 12ª edição). Cinco mil pessoas, estudantes e professores de todo o país, se reúnem a cada dois anos e têm esse caráter multiplicador”.Loyola destaca também o Fórum das Letras de Ouro Preto, além de mais de meio século da Feira do Livro de Porto Alegre, a Bienal de Fortaleza, com os escritores percorrendo os bairros mais distantes da capital cearense, as fazendas, falando com as crianças. “Eles têm garotos que vão de bicicleta, levando livros nas costas, para pontos onde deixam os livros para buscar depois de 15 dias.”Loyola emenda com o Festival Literário de São Luís, no Maranhão, e o Encontro Natalense, em Natal, Rio Grande do Norte, além da Fliporto, em Porto de Galinhas, Pernambuco, a Feira Pan-Amazônica do Livro, em Belém do Pará, as feiras da gaúcha Caxias do Sul, da paulista São Joaquim da Barra...Fabiane Verardi Burlamaque, da comissão organizadora da Jornada de Literatura de Passo Fundo, destaca o diferencial do evento gaúcho, que é bianual: “Temos as pré-jornadas, com a divulgação das obras dos escritores convidados e seminários. Assim, nos encontros com os autores, os leitores chegam com as obras já lidas, para os debates, para as mesas-redondas, que são realizadas literalmente em um circo, sob a lona.”
Com a leitura prévia, os debates se enriquecem muito, como lembra Ignácio de Loyola. “É a feira com que todos os escritores sonham”, diz. “Chega a causar espanto nos estrangeiros.”Das jornadas de Passo Fundo participam desde os honoráveis membros da Academia Brasileira de Letras até as 12 mil crianças e adolescentes da Jornadinha. Depois de 26 anos nessa movimentação, Passo Fundo passou a ser conhecida como “a capital nacional da literatura”.
COMO ESTRELAS DO ROCK
Sobre os muitos festivais literários que vêm despontando, o curador da FLIP, Flávio Moura, observa que os escritores andam com as agendas lotadas, quase “como bandas de rock que fazem lançamentos e então partem para turnês”.Desde que lançou, em setembro de 2007, 1808, sobre a vinda da corte portuguesa de D. João VI para o Brasil, Laurentino Gomes deu mais de 200 aulas e palestras. “Estive em Jataí, interior de Goiás, onde falei com plantadores de soja; em Mossoró, interior do Ceará, Ipatinga, Governador Valadares, Porto Alegre, Ribeirão Preto, Natal, Aracaju... As feiras estão se multiplicando.” Laurentino viu a imensa quantidade de leitores em potencial, que agora têm a oportunidade de convivência com o ambiente dos livros.“Em um mundo onde se disputa a atenção e – principalmente – o tempo das pessoas, é importante que o autor interaja com o leitor, escute críticas, sugestões e elogios. É tietagem mesmo, com pedidos de autógrafos, de fotos com celulares. O culto às celebridades está chegando à literatura! E pessoas simples vêm me dizer que não gostavam de história do Brasil, não gostavam de ler e passaram a gostar. É impressionante o poder transformador do livro na vida das pessoas”, comenta. “Por isso, a tarefa do escritor não se esgota quando entrega os originais para o editor. O contato com os leitores, depois, é o mais importante. E o mais divertido!”Com o 1808, o autor ganhou, agora em 2008, o Prêmio Jabuti de livro do ano na categoria não-ficção. Em 2010, espera entregar os originais do livro que falará da independência do Brasil. Por isso, terá de tirar um pouco o “pé na estrada, que proporciona a divulgação nos jornais locais muito depois do lançamento – quando saem as reportagens nos grandes jornais e tevês nacionais –, além do boca a boca”. “As pessoas gostam de recomendar livros e filmes”, observa Laurentino.E se nas feiras os autores sentem a “concretude do leitor, que deixa de ser uma entidade meio abstrata”, como assinala Flávio Moura, também têm chance de se libertar da rotina mais fechada do escritor e ainda de se conhecerem pessoalmente. No caso de Paraty, em passeios de barco, em jantares, no descanso nas pousadas. “O Neil Gaiman – inglês, conhecido dos amantes de quadrinhos pela série Sandman – estava maravilhado, só falava em encontrar seu ídolo Tom Stoppard – tcheco naturalizado inglês, conhecido pela linguagem sarcástica, autor de teatro e roteirista de cinema, famoso por Shakespeare apaixonado; o holandês Cees Nooteboom – de Paraíso perdido; e Fernando Vallejo – colombiano que mora no México, autor de A virgem dos sicários, ao contrário do que se comentou, ficaram muito próximos”, relata Moura.O contato entre escritores e leitores proporciona trocas interessantes, como também destaca Veronica Stigger, autora de O trágico e outras comédias e Gran Cabaret Demenzial. “O trabalho do escritor é solitário. Não é como no teatro, por exemplo, onde se tem resposta imediata. Nas feiras literárias, quando o autor lê parte de seus textos, já tem resposta ali, na hora.” Às vezes, concorda Veronica, em meio a comentários interessantes, surgem até mesmo interpretações diferentes do que o autor escreveu.A gaúcha, bem-humorada, vai divagando: “É até estranho a gente pensar aonde os livros vão parar! O conto Na escada rolante, do Cabaret, foi publicado em uma revista sueca, a Karavan. Nem sei como eles chegaram a esse meu conto... No ano passado, foi um jornalista latino-americano que quis me entrevistar para a revista Qué pasa?, porque leu meu livro quando estava em Bruxelas, na Bélgica, emprestado de uma amiga portuguesa... ”Veronica esteve na Bogotá 39, na cidade colombiana escolhida como “Capital mundial do livro 2007”. Foi selecionada entre os “39 escritores com até 39 anos mais promissores da América Latina”, com contos indicados por 2 mil editores do continente e três jurados colombianos. Os autores participaram de três a quatro encontros em cada um dos quatro dias, em vários cantos da cidade, de bibliotecas a escolas de periferia.É “literatura viva” que “deixa de lado qualquer caráter solene”, como explica Marcelino, que reflete: “Os escritores não estão mais encastelados. Estão se reunindo com os leitores, com públicos diferentes, de todas as idades”. “Eu? Para onde me convidam, eu vou...” ©
Hay-on-Wye, nas montanhas do País de Gales, tem fortificações desde o ano 1070. Cidade com menos de 3 mil habitantes, mas expressiva em número de sebos, virou lenda entre os apaixonados por livros – tanto que o bibliófilo Richard Booth decidiu “proclamar” o reino independente de Y Gelli Gandryll, com ele mesmo no posto de “rei”. Em 1987, Norman Florence e seu filho, Peter, tiveram a idéia de sacudir a erma Hay com um festival literário com um dinheiro ganho no pôquer. No ano seguinte, foi realizada a primeira edição do Hay Festival, apresentando uma verdadeira “lenda” como convidado. Henry Miller – autor de Trópico de Câncer – teria brincado ao perguntar se Hay-on-Wye era algum tipo de sanduíche.Pois até Bill Clinton, já fora da Casa Branca, em 2001, faz parte da história do festival, onde falou sobre “linguagem utilizada na resolução de situações de conflito”. E consta que o ex-presidente dos Estados Unidos lá comandou uma rodada de pôquer por uma noite inteira... Nestas duas décadas, o Hay Festival rendeu filhotes em Alhambra, na Espanha; em Cartagena, na Colômbia, e outros. Hoje reúne cerca de 80 mil pessoas em dez dias, para quase 500 eventos, e elevou o movimento turístico da cidade para 500 mil/ano, em torno de suas 40 livrarias e sebos.E não é que foi a inglesa Liz Calder, então editora da Bloomsbury (que lançou a série Harry Potter, da escritora J. K. Rowling) e apaixonada por Paraty – onde comprou uma casa em 1995 –, quem resolveu batalhar por um festival literário na cidade fluminense, parecido com o de Hay-on-Wye? E não é que deu certo?! Foi um sucesso desde a primeira edição, em 2003 – quando nasceu a Festa Literária Internacional de Paraty – que contou com o historiador inglês (nascido no Egito) Eric Hobsbawm, autor de A era das revoluções, A história social do jazz e Tempos interessantes. A Fliporto, em Porto de Galinhas, Pernambuco, agora se abre para o mundo. Teve escritores da literatura latino-americana, com representantes de 13 países em 2007. Houve mesmo oficinas curiosas, como conta Antônio Campos, curador geral, “como a de poesia quéchua, ministrada pelo peruano Odi Gonzales, chamando a atenção para culturas ancestrais e mostrando como a cultura maia antecipou em muitos séculos a linguagem cifrada dos computadores”.Na quarta edição, este ano, destacou também a literatura africana, principalmente de língua portuguesa (com autores de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe), em debates em uma praia que foi, justamente, porto de escravos. Além dos eventos descentralizados, a Fliporto ainda possibilitou que suas discussões fossem acompanhadas ao vivo por um público mais distante, por meio de rádio e tevê via internet.O Fórum das Letras de Ouro Preto já está se internacionalizando, como conta sua coordenadora geral Guiomar de Grammont: “Realizamos o Letras em Lisboa, em abril, iremos realizar o Letras em Lisboa e em Paris em maio do ano que vem e já estamos iniciando o projeto do Letras em Nova York em 2010.” A escritora, que acaba de lançar o livro Aleijadinho e o aeroplano, destaca que o fórum pretende ser “parte do esforço para estimular o gosto pela leitura, favorecendo a reflexão, e para ampliar o número de leitores no Brasil, incentivando também a criação literária”. Neste ano, o evento contou com mais de 12.500 visitantes participando dos debates na cidade, segundo o Instituto Estrada Real.Além do público infantil, com o programa Letrinhas, Guiomar explica que pretende espalhar atividades ligadas ao fórum pelo ano todo, com o estímulo da leitura nas escolas, bibliotecas, hospitais e mesmo nas feiras de frutas e legumes: “Estendemos um tapete com livros e monitores orientam a curiosidade dos interessados”. Ação semelhante à que faz a Associação Casa Azul, em Paraty, que na esteira da FLIP apresenta atividades para estudantes locais durante todo o ano, com resultados animadores de aumento no índice de leitores mirins.

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