BEM VINDO AO MANIA COLORIDA

6 de junho de 2010

GRAFISMO INDÍGENA



UM PROJETO ENVOLVENTE DO INÍCIO AO FIM


Trabalho desenvolvido em duas classes de 3º ano de Ensino Fundamental I, turmas da manhã e tarde.



CARACTERÍSTICAS GERAIS DAS CLASSES:

Nº DE ALUNOS: 40
MENINOS: 16
MENINAS: 24
FAIXA ETÁRIA: 8 ANOS
TODOS ALFABETIZADOS


JUSTIFICATIVA:

O presente projeto traz abordagens antropológicas relacionadas às origens dos povos, das civilizações, da disseminação cultural, da evolução deste “ser” cultural e de seu espaço na sociedade.
Segundo a Doutora em Educação, Sônia Kramer a escola hoje tem um papel fundamental que nos deixa um questionamento reflexivo: “O que é básico na escola básica?”. Para ela, a riqueza da escola está em sua heterogeneidade e que esta não pode ser vista como um obstáculo. Proporcionar ao aluno, o acesso ao conhecimento científico, cultural, artístico é vital e “básico”. Assim, o indivíduo toma consciência de quem ele é, de onde ele veio, para onde vai e de que forma vai.
Se os sujeitos têm uma estrutura de identidade social e cultural bem definida, pode de fato ser um agente transformador do meio em que vive.
É importante que o educador auxilie e favoreça a criação de “ambientes” propagadores de cultura, identidade social, étnica e de convivência integrada entre diferentes formas de pensamento e costumes, onde possa haver possibilidade de coexistência entre grupos sociais, religiosos, políticos e dando aos sujeitos o que é seu de direito.
A prática da cidadania tem suas bases no respeito à diversidade e na auto-afirmação como povo multi-étnico que somos.
Para Kramer, a escola é o espaço adequado e ideal para a construção dos seres que farão parte de uma sociedade com atitudes éticas que sabem de onde vêm e o que querem. Assim sendo, têm condições de caminhar em direção à busca de justiça social de forma ativa.
Com relação aos aspectos artísticos, surgem diálogos com relação à produção cultural. A criança manifesta-se através da produção artística, transmitindo seu universo, seu conhecimento, sua visão de mundo, suas interpretações e portanto, produtora de cultura. Somos seres produtores de cultura.
Lux Vidal em seu livro, “Grafismo Indígena”, aborda questões antropológicas do índio brasileiro, através de estudos sobre a linguagem, expressão artística e estrutura social destes povos. Trata da formação cultural indígena desde a pré-história e sua evolução até hoje.
Embora o enfoque do livro seja a apresentação da produção artística indígena em suas diversas modalidades e destaca então o grafismo, o trabalho é permeado por discussões antropológicas que dão significado à linguagem artística e auxiliam na sua interpretação.
Rico em ilustrações e textos explicativos, Vidal proporciona ao leitor, uma extraordinária viagem pelo Brasil indígena.
Como base do trabalho, estão as orientações metodológicas do material didático utilizado para as aulas de artes.
Maristher Motta Bello, autora do material de artes da Editora Positivo, traz uma proposta abrangente sobre o conceito de arte e sua relação com o cotidiano da criança de forma a situá-la no tempo e no espaço, associando-a às suas origens e evolução.
As abordagens de Grafismo iniciam pela pré-história e o início da linguagem gráfica humana como forma e necessidade de comunicar-se, deixar suas impressões registradas para as futuras gerações. De modo contextualizado, mostra à criança que temos uma origem e que em cada parte do mundo, temos diferentes comportamentos e crenças e por isso, tantas formas de expressões artísticas.
Bello, quando abre o capítulo de Grafismo Indígena, situa a criança no universo cultural do povo indígena. A criança tem a possibilidade de descobrir como eram e são as estruturas familiares deste povo, como os costumes se perpetuaram através dos tempos e que as ações cotidianas estão diretamente ligadas a esta visão cultural.
Desta forma, a criança é capaz de mobilizar seus conhecimentos acerca de sua própria história e contexto familiar, de modo a perceber que existem diferentes modos de viver e que influenciam também a nossa cultura. A criança elabora questionamentos e comparações de sua realidade hoje, com a realidade de gerações passadas e de outros povos.
Este contexto de debate se faz necessário na contemporaneidade, uma vez que há necessidade de reflexão que promova a ação dos sujeitos em direção à construção da sua identidade social, cultural, étnica e principalmente de sua auto-estima.

OBJETIVOS GERAIS:

Promover uma discussão acerca da diversidade étnica, social e cultural no Brasil e no mundo.
Estabelecer uma relação entre a produção cultural, expressão, linguagem e a arte.
Perceber a formação social de um grupo, seus hábitos e sua integração com o mundo que o cerca. A relação do homem com o seu habitat, com seu grupo, utilizando dos recursos de que dispõe para a sua sobrevivência.
Compreender as relações de tempo, espaço e cultura e sua influência na identidade social do povo brasileiro.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS:

Trazer o grupo para uma reflexão sobre o “diferente” e o “igual”.
Levantar questões comportamentais pertinentes à diversidade social e cultural no Brasil.
Levar a criança a perceber que faz parte deste contexto social e que carrega heranças desta diversidade.
Promover debate sobre a importância de se cultivar a própria história a fim de construir identidade cultural e respeito às diferentes manifestações e hábitos de uma comunidade ou grupo social.
Estabelecer um vínculo entre a cultura e a produção artística de um povo.
Mostrar como os povos indígenas viviam, vivem e como produzem sua arte.
Dar a criança, a possibilidade de vivenciar e experimentar empiricamente, as etapas de construção do grafismo indígena de forma a concretizar o estudo e contextualizar a produção artística.
Levar à uma mudança atitudinal em relação ao grupo/classe, grupo familiar, grupo social em que vive, de modo com ética e respeito ao que é “diferente” dela.

FATOR DE MOTIVAÇÃO/MOBILIZAÇÃO:

Múltiplas possibilidades de desenvolvimento do tema, importância das abordagens antropológicas, históricas, sociais, culturais e a experimentação artística concretizando a vivência do processo de criação dos grafismos.
Exercício da linguagem gráfica como modo de expressão e de manifestação cultural.

DESENVOLVIMENTO:

O tema inicial surgiu a partir da arte e dos estudos relacionados à arte indígena brasileira.
Com base no livro de Lux Vidal e no material de apoio das apostilas utilizadas para o ensino de artes, o processo se deu de forma a integrar o grupo de crianças ao universo cultural e social das comunidades indígenas brasileiras, desde os períodos mais remotos da história.



A classe já havia trabalhado em seus conteúdos, com as suas respectivas professoras titulares, as características das diversas famílias em diferentes tempos históricos. Tanto famílias urbanas, quanto residentes na área rural. Usos e costumes, hierarquia familiar, comportamentos sociais e hábitos cotidianos. O que foi de estrema importância para o projeto, uma vez que as crianças já acrescidas de alguns conhecimentos prévios puderam exercer com propriedade comentários relativos à vida das famílias indígenas.
Num primeiro momento, as crianças foram levadas ao campus da escola, num dia ensolarado e agradável. Sentamos embaixo das árvores, numa roda e começamos a “investigar” o que os livros trariam de novidades. As ilustrações dos objetos, dos grafismos, das crianças desenhando, das crianças brincando, das mamães preparando os alimentos e pintando a pele de seus pequenos causou curiosidade e provocou um dominó de questionamentos.
As crianças perguntavam a todo instante sobre a ausência de vestes nos povos indígenas. Algo inconcebível no ponto de vista das crianças.
“-Como pode isso? Eles não sentiam vergonha? Não sentiam frio? Olha só, os peitos das mulheres... estão de fora, ui, ui, ui!”
Os cochichos constantes, comentários insistentes e ares de indignação visíveis possibilitaram uma conversa mais abrangente sobre os hábitos culturais deste povo.
Observavam atentamente as fotos comparando à sua realidade. Curiosamente apareceu uma foto onde meninas brincavam com suas bonecas, assim como também nossas crianças o fazem naturalmente. O detalhe observado, além das meninas estarem sem roupas, foi o fato de as bonecas terem pinturas semelhantes às pinturas corporais utilizadas pelo grupo indígena. Então fizemos o exercício de saber como nossas meninas brincam com suas bonecas. A descoberta do grupo rumou para o que em geral se considera a imitação do mundo adulto. As meninas disseram que cortam os cabelos de suas bonecas, algumas até relataram em alto e bom tom:
“-Fiz chapinha na minha boneca, mas o cabelo dela grudou todinho.”
Confessaram já ter passado batom e esmalte em suas bonecas novinhas... Mas, o que é isso senão a transformação de comportamentos, imitação dom universo cultural ao qual estamos atrelados e inseridos como sujeitos ativos. As crianças ainda mais, por seu estado de busca constante de respostas.
Conversamos também sobre hábitos alimentares e sua influência na nossa alimentação, o enriquecimento de nosso vocabulário em função da derivação de palavras indígenas. Abordagem das diversas povoações indígenas brasileiras, espalhadas em todo o território nacional e suas reminiscências hoje.
Ficaram evidentes as heranças culturais percebidas pelas crianças. Surgiram depoimentos sobre as descendências das crianças e sobre como em uma sala de aula existem tantas diferenças, tantas origens, tantos sotaques, ao passo que somos todos brasileiros.
Sempre com olhares atentos, opinavam e formulavam suas hipóteses com segurança, pois estavam à vontade com o tema. Possuíam um repertório próprio e condições plenas de argumentação, uma vez que já haviam estudado diferentes famílias anteriormente nos conteúdos de história.
Em seguida, focamos a arte propriamente dita, com suas particularidades e significados.
As crianças puderam perceber as diferenças e semelhanças entre suas produções artísticas e as das crianças indígenas e admiraram-se ao descobrir que lá, os pequenos começam a desenhar desde a mais tenra idade. Outro fator importante a destacar é o fato de que as crianças são ensinadas e conduzidas pelos membros mais velhos das tribos e que estes são respeitados em sua hierarquia como forma de valorização da sabedoria da experiência, preservação da cultura do povo, organização social das comunidades e como indivíduos “cuidadores” das crianças. Todos são responsáveis pelas crianças da comunidade. As crianças são protegidas e a mulher é respeitada em seu papel de mãe, genitora, guerreira e alicerce do lar.
Tantas informações, tanta curiosidade proporcionaram um aprendizado gostoso e integral sobre o assunto.
Descobrir que aqueles desenhos têm seu significado e que não são apenas simples desenhos, mas são uma forma de comunicação foi radiante. Sabendo disto já das aulas sobre a pré-história, ficavam atônitos em saber o que significaria isso ou aquilo, tentando a todo instante, formular suas hipóteses sobre o formato dos grafismos. O olho de águia, as asas das borboletas, a pele dos animais, as texturas das folhas, a imersão no mundo natural. É poético? Sim, é. Mas é mais do que isso. As crianças foram percebendo o imenso apreço e respeito pela natureza. Perceberam que os índios cuidam, valorizam aquela que lhes dá o sustento da vida e que é dela a origem dos seus grafismos de sua arte, como uma reverência à “mãe natureza”. Olhem a importância deste discurso. Principalmente nos dias atuais, sobretudo nas urgências em preservar a água e todos os demais elementos da natureza.
Não é necessário dizer que o grupo, diante de tanta informação substancial, transformou suas fisionomias de curiosidade a espanto em segundos. Não é necessário ressaltar que toda esta informação foi questionada à exaustão pelas crianças, ávidas por saber, por saciar sua curiosidade e sede de conhecimento.
Este processo de conversa foi gradativo e na medida que surgiam novas perguntas, novos diálogos eram estabelecidos e maturados.
Em meio à natureza, buscaram objetos como folhas, pinhas, galhos secos, cascas secas ou qualquer tipo de elemento natural que encontrassem. Com uma regra primordial: não valiam objetos arrancados da natureza, só os que já estavam pelo chão e trazidos pelo vendo ou derrubados pelas árvores.







Cada criança juntou o que podia e o que mais lhe chamou atenção. Já na coleta, procuravam traços e desenhos em seus objetos. Alguns enchiam suas blusas e seus bolsos de folhinhas, pedrinhas e pinhas, temendo perder tudo pelo caminho.
Tudo foi acomodado em uma caixa e guardado no atelier para a próxima aula...
A semana demorava a passar, pelos corredores me perguntavam o tempo todo:
“-Quando teremos aula de novo?”
 E quando chegava o dia, os olhares atentos, silenciosos, mas muito curiosos aguardavam a ordem do dia.
A primeira fase do trabalho prático fora recolher os objetos. Na segunda fase, a tarefa foi observar atentamente cada objeto e buscar neles as expressões das linhas, das texturas, relevos, superfícies, desenhos, possíveis formas geométricas e suas cores. Num papel, deveriam esboçar seus primeiros traços de grafismo, sem preocupação de espaço, tamanho, nem com relação ao uso do papel. Cada um em sua mesa olhava bem de perto seu objeto e tentava arrancar-lhe expressões. No papel, os traços surgiam. Foi maravilhoso observar o nascimento do grafismo, genuíno, puro e em sua essência pelas crianças.



folha


folha da foto acima


materiais diversos


associação com elementos primitivos, busca de formas de animais


pinha


Esta primeira etapa do desenho, ainda sugeria certa insegurança e aos poucos, o grupo foi exercitando a abstração. Este conceito não é facilmente assimilado por eles. Mas o exercício contínuo e as seguidas visualizações e consultas aos livros foi o trampolim da criação magna, O GRAFISMO de cada um.
Quando terminavam de rabiscar a folha, imediatamente iniciavam mais experimentos no verso desta. Utilizei duas aulas inteirinhas para esta prática.
Mais adiante, de posse de um papel mais resistente e sofisticado, o grupo iniciou a atividade de criação de puro abastracionismo. Cada um, deveria criar suas barras de grafismo, baseados nos exercícios anteriores, nos objetos coletados e em tudo o que já havíamos estudado sobre o assunto. Desta vez, os desenhos seriam coloridos. Optamos por usar duas cores, o preto e o vermelho.








chamou-me a atenção o estilo da pintura






Tive a oportunidade de levar algumas amostras de “urucum” para a sala e explicar-lhes os usos da planta.
Todos os trabalhos foram tomando forma e cores. Quanto mais desenhavam, mais se admiravam com a própria produção.
Este processo é de suma importância nas práticas artísticas, pois a criança passa de sujeito observador a sujeito autor, criador de sua própria obra. Fortalece sua auto-estima e auto-confiança. Neste momento, a criança se encaixa em seu grupo como produtora de arte, de cultura, de “textos” que embora não literários, são a mais pura expressão de suas vivências anteriores. Discurso que é literalmente reforçado pela Doutora em Educação, Sônia Kramer.
Cada etapa do desenvolvimento deste trabalho foi cuidadosamente elaboraço e vivenciado pelo grupo, provando que quanto mais o tema se aproximar da realidade da criança, de sua experiência cotidiana, mais lhe fará sentido, mais despertará seu interesse e avidez pelo conhecimento. A teoria se transforma em realidade significativa.
Com o projeto chegando ao final, pois a data da mostra se aproximava como que “a passos largos” e nós dispúnhamos de apenas 1 aula semanal de 50 minutos, não houve a possibilidade e o tempo hábil para a produção de peças de cerâmica, assim como os índios o faziam. Então optei por peças prontas e já existentes na escola. Para a turma da manhã, arranjei vasinhos de cerâmica e para a tarde, telhas – estas que cobrem as casas mesmo! Lavei as peças e distribuí aos grupos solicitando que desenhassem os grafismos criados por eles. E sempre tem aquela perguntinha básica:
“-Mas se eu quiser, posso mudar o desenho professora?” ou ainda, “-Posso fazer do meu jeito?”
Claro que eles sempre têm voz ativa e como não ceder aos insistentes apelos à criatividade e as mudanças?
E durante alguns dias, iam e vinham com estas peças – pé por pé – da sala de aula para o atelier e do atelier para a sala de aula. Os objetos não podiam quebrar.




Quando finalmente chegou o momento de inserir a tinta... ah... a tinta! Esta que é a razão de ser das crianças. Sonho de consumo nas aulas de artes... risos.






Foi para mim, uma experiência imensamente prazerosa, pois me preparei bastante, li muito, estudei todos os aspectos e pensei muito sobre os trabalhos práticos. Emocionava-me a cada etapa vencida e mais ainda, quando via aqueles processos de criação nascendo da alma deles, não contive as expressões admiradas e extasiadas.
O grupo me surpreendia a cada momento com novidades e novas conclusões.


















Tudo foi registrado em fotos. Tudo foi registrado no coração.
Sensação indescritível.
Por fim, a exposição aconteceu juntamente com a apresentação teatral do Fundamental, exatamente no dia 27 de setembro de 2008, para coroar com louvor todo o trabalho das crianças.
Depois, em outra data, aconteceu o Evento Cultural do Colégio e mais uma vez os trabalhos estiveram em exposição para o deleite de todos.



Não posso esquecer de mencionar que todas as produções de cerâmica, ainda foram expostas na Escola Japonesa durante duas semanas, retornando para o berço de criação com muitos elogios às crianças.
Dentre todos os trabalhos desenvolvidos em sala de aula com estas classes de 3º ano, tenho a certeza de que este projeto foi o mais marcante, vivenciado e emocionante que tiveram neste ano.









MATERIAIS UTILIZADOS:

Para estes dois meses de trabalho intenso, o material usado foi simples, de fácil acesso e proporcionou aproveitamento excelente do grupo.
Usamos folhas de papel sulfite para o rascunho, papel canson para as etapas mais elaboradas, lápis de cor, peças de cerâmica e tinta guache.


AVALIAÇÃO:

A disciplina de Artes não vem carregada de provas com questões e relatórios sobre cada atividade realizada.
A avaliação se dá pela observação constante da participação individual do aluno, das manifestações do grupo, da concentração e absorção deles durante a realização das atividades práticas e pelo nível qualitativo de sua produção.
Os processos de criação foram observados atentamente. Os níveis de diálogo estabelecidos entre o grupo/classe e também entre eles e eu, foi o “termômetro” do aproveitamento dos conteúdos discutidos informalmente, mas absorvidos de forma concreta e envolvente.
O grupo aproveitou 100% do projeto.
Isso se deu pelo fato de o tema estar relacionado a conteúdos anteriores que deram subsídios prévios e condições às crianças de opinarem, argumentarem e formularem suas conclusões. O fato de abordarmos constantemente os hábitos da criança indígena despertou muito interesse. Foi como se observassem a vida de outros iguais a eles, de mesma faixa etária, ou seja, fez parte do universo real da criança.
O saldo foi positivo em todos os aspectos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Um projeto traz em si, compartimentos “secretos” que muitas vezes só são descobertos no meio do processo ou quase no final. Em algumas situações, o educador é forçado a mudar a rota dos “vagões” para que o trem não descarrile.
Pode ser uma “caixinha de surpresas” e a todo instante, as descobertas coletivas se fazem presentes, trazendo novas informações sobre os rumos que este deve seguir.
No caso deste Projeto sobre Grafismo Indígena, embora o ponto de partida tenha sido um conteúdo apresentado dentro do material didático adotado pelo Colégio, deu margem a desdobramentos que possibilitaram discussões pertinentes, importantes, prementes e significativas.
É importante ressaltar que este projeto foi idealizado antes de iniciar, não foi crescendo e sendo acrescentado com etapas na medida em que o grupo avançava. O que deu vazão aos constantes diálogos e que possibilitou uma “cara” diferente aos estudos foi o viés social e cultural claramente apresentado pelo próprio tema abordado.
À medida que as crianças percebiam as semelhanças e as diferenças entre as comunidades indígenas e eles, foram sendo criadas correntes de perguntas e respostas que resultaram em conhecimento.
Por se tratar de uma abordagem inicialmente artística, a curiosidade primeira das crianças é:
“Tia, o que nós vamos fazer hoje?”
Como o assunto foi sendo revelado aos poucos, a aura de mistério envolveu e prendeu a atenção deles até o fim.
Instigar o oculto, o diferente, o mistério, as descobertas, a fantasia contraposta à realidade. O mito e o real. Um “prato cheio” para a fome de conhecimento natural das crianças.
Conteúdo que se preso somente às questões artísticas, teria um fim em si mesmo e seria mais uma produção artesanal. Tornou-se Arte pura quando teve agregado a ele, significados culturais, temas humanos, temas reais, vida real, vida social, identidade cultural.
Trabalhos como este que amarram todas as possibilidades de discussão, trazendo à tona os anseios dos alunos e atendendo às suas necessidades auxiliam em mudanças de atitude frente ao outro, frente à família e ao grupo social onde está inserida.
Pois a criança se dá conta de que é única, é diferente das outras, ao mesmo tempo é igual, mas suas origens são diferentes, no entanto nasceu no mesmo país que as demais. Percebido sob este olhar, podemos afirmar que é “louco” pensar sobre todos estes aspectos ao mesmo tempo.
Mas esquecemos da imensa capacidade da criança de absorver o todo, antes de “fatiar” para deglutir. A criança observa o doce inteiro, ela o deseja inteiro, só para ela. E somente quando o tem em suas mãos é capaz de perceber que pode e deve dividi-lo com os demais.
Porque compartimentar tudo antes de dar a ela a possibilidade de fazê-lo sozinha? Seria subestimá-la.
Como educadora, participar desta construção com este grupo especificamente foi uma experiência inusitada. Embora eu tenha planejado as etapas de desenvolvimento artístico, com seus materiais e tempo hábil para a realização de tudo, não esperava tamanha cooperação e envolvimento. Do mesmo modo que me preparei para o conteúdo artístico, fui impelida a vasculhar todas as áreas do conhecimento para atender à demanda que surgia a cada encontro na aula.
Levei conhecimento ao grupo e recebi conhecimento deles. Motivei-os ao trabalho e eles me instigaram à pesquisa.
Senti falta de tempo para poder explorar mais os recursos tecnológicos disponíveis e em algumas etapas do trabalho, fiquei “na mão” com a bateria de minha máquina fotográfica. Senti vontade de registrar cada instante, cada suspiro, cada exclamação, como que num desejo impetuoso de perpetuar e “congelar” aqueles olhares sedentos e cheios de brilho próprio. É como se eu precisasse guardar tudo dentro da câmera, para não perder nenhum segundo diante de tanta beleza.
São experiências como estas que nos pegam de “calças curtas” e nos mostram o quanto somos pequenos diante da grandiosidade do mundo e de todo o conhecimento produzido pelo homem desde a pré-história.
Posso dizer que as produções das crianças neste projeto viraram meus objetos de apego (risos).
Há algum tempo li um texto sobre gostos musicais e sua construção desde a infância e da importância deste processo. Pois bem, não me recordo no momento de quem é o dito, mas se encontrava numa publicação da educadora Luciana Ostetto e era mais ou menos assim:
Para quem nunca tomou chá, qualquer erva serve. Mas se tomamos chá todos os dias, com o tempo desenvolvemos a capacidade de discernir o aroma, o sabor e as propriedades de cada planta.
Parece primário e óbvio, mas é de uma sabedoria profunda e verdadeira. Sem falar, no direito da criança, a saber, sobre o mundo em que vive o direito da criança de ver tudo e o dever do educador de mostrar-lhe este leque. Nós somos os olhos dos pequenos. Nós somos, muitas vezes, a voz destes pequenos. Nós somos construtores, eles são tijolinhos.
Dar a criança o direito de exercer a sua cidadania, de ser sujeito ativo em sua existência, dar a ela condições de decidir, ter iniciativa, discernir, escolher... escolher. O direito de escolher seu caminho no futuro é construído no jardim de infância.
Funções importantes, direitos adquiridos, deveres firmados, um papel importante, o de ajudar a criança a elaborar e construir sua identidade enquanto brasileira.
Não importando sua origem, sua raça, sua cor, sua condição social e sua crença religiosa. A criança é antes disso tudo um ser digno de respeito, um semelhante, um indivíduo que se desenvolve e que nunca pára de aprender e que apesar de todas as diferenças existentes entre os grupos sociais, são todos cidadão brasileiros.
Uma nação multiétnica que precisa urgentemente aprender a construir sua identidade nacional.

Por
Dagmar Amsberg


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Apostila de Arte do Positivo 2008
1º ano do Ensino Fundamental.

Apostila de Arte do Positivo 2008
3º ano do Ensino Fundamental.

VIDAL, Lux (org.). Grafismo Indígena.
EDUSP, São Paulo

KRAMER, Sônia e Maria Leite (orgs.). Infância e produção cultural.
Papirus. Campinas/SP, 1998.



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4 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns pela abordagem do tema professora
Temos muito que trabalhar com nossas crianças, despertando a curiosidade para com nossas raízes, para com a arte produzida.
Muito bom seu blog.
Já me cadastrei como seguidora
Prof.Celina Campos

Dagmar disse...

Obrigada pelo comentário Professora Celina. Este trabalho foi muito gratificante, pelo prazer que proporcionou a todos os envolvidos, principalmente a mim. Parto do princípio de que saber nossa história, ajuda a compreender o presente e direciona as decisões e opções com relação ao futuro, possibilirando aos sujeitos mudar rotas e melhorar o espaço social onde vivem.
Um grande abraço,
Dagmar

Grupo Encontros disse...

Parabéns, belo trabalho. fizemos um trabalho com crianças de um Nucleo da criança e do adolescente em que nos inspiramos muito no seu trabalho que nos deu várias ideias.
grupo encontros
http://grupoencontros.blogspot.com.br/

Grupo Encontros disse...

Olá Dagmar,
Não resistimos a tentação. Fomos para as telhas também.
http://grupoencontros.blogspot.com.br/2013/05/chegou-o-dia-das-t-i-n-t-s-so-reuniao.html?spref=fb