BEM VINDO AO MANIA COLORIDA

24 de julho de 2010

O ENSINO DA ARTE HOJE: TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS

 Por Dagmar Amsberg



“Aqueles que defendem a Arte na escola meramente para liberar a emoção devem lembrar que podemos aprender muito pouco sobre nossas emoções se não formos capazes de refletir sobre elas.”
(BARBOSA, 2008c, p.21).


Os debates de hoje sobre o que realmente importa no ensino da arte dentro da escola, caminham para a afirmação de tudo o que já foi dito antes por Arte Educadores que se empenharam e se empenham sem reservas na luta pelo reconhecimento da arte como disciplina de conteúdo, de história, de origem e percurso bem estruturados e definidos.

Hoje a arte é percebida também como produção cultural, expressão pessoal. Barbosa (2008c), destaca que a “Arte na Educação como expressão pessoal e como cultura é importante instrumento para a identificação cultural e desenvolvimento pessoal” (p.18). Ainda no mesmo trecho, enfatiza que “por meio da Arte é possível desenvolver a percepção e a imaginação, aprender a realidade do meio ambiente, desenvolver a capacidade crítica”, o que permite ao indivíduo desenvolver sua criatividade, através da reflexão, analisando sua realidade e sendo capaz de modificá-la.

O uso da imagem torna-se cada vez mais presente e necessário, uma vez que o mundo hoje nos oferece o código visual de forma intensa e constante. E isto fica implícito no texto de Barbosa (2008a) que diz “aprende-se a palavra visualizando” (p.28). Embora simples em sua compreensão, este conceito é ao mesmo tempo complexo quando transportado para o campo artístico. Principalmente depois de toda abordagem histórica relatada no presente trabalho, que mostra claramente as práticas de ensino da arte baseadas na reprodução, no tecnicismo, no “treino” do traço, na criação do “hábito da arte” na criança.

Segundo Barbosa (2008a), a necessidade de “alfabetização visual” confirma a importância do papel da arte na escola. Refere-se à “leitura do discurso visual” como um processo que vai além da análise dos elementos formais de uma obra, ou seja, a linha, a cor, a forma, volume, equilíbrio e ritmo. Esta “leitura” é focada na “significação que esses atributos, em diferentes contextos, conferem à imagem” (p.18).

“Não se trata mais de perguntar o que o artista quis dizer em uma obra, mas o que a obra nos diz, aqui e agora em nosso contexto e o que disse em outros contextos históricos a outros leitores.”
(BARBOSA, 2008a, p. 18-19).

Diante da enorme variedade de veículos que nos permitem o acesso à imagem, sejam eles a mídia, os livros, jornais, revistas, informática, outdoors, propagandas, produtos nas prateleiras, o mundo que nos cerca, bem como conceitos e idéias, nos permitem a ampliação e a busca constante dos processos armazenados em nossa mente sobre que imagem está registrada para cada evento. Percepção esta que é individual, segundo o código recebido por cada pessoa desde a infância. Inconscientemente, “nós aprendemos por meio delas” (p.19).
Segundo Barbosa (2008c), “testemunhamos hoje uma forte tendência de associar o Ensino da Arte com a Cultura Visual” (p.19).
Enfatiza também a característica da Arte Educação Pós-Moderna, que não mais se atém somente aos “códigos europeus e norte-americanos brancos, porém mais atenção à diversidade de códigos em função de raças, etnias, gênero, classe social etc.” (p.19).
Não apenas o lado erudito desta cultura é apresentada, mas a junção do erudito com o popular, esta é, segundo Barbosa (2008c), a “grande ênfase que vem sendo dada aos projetos de Arte-Educação que demonstram o mesmo valor apreciativo pela produção erudita e pela produção do povo” (p.20), e assim acabam por tecer um fio que une a Cultura da Escola e a Cultura da Comunidade exercendo a prática da contextualização e valorização da diversidade.
Em sua pesquisa, Barbosa (2008c) elenca uma série de pontos importantes que nos mostram os caminhos que a Arte Educação vem traçando na escola, quais as metodologias aplicadas, quais as perspectivas de ensino e tendências atuais.
Em seu discurso, a questão da inserção da imagem na sala de aula como código visual a ser decifrado e aprendido é uma constante. Para ela, “reconhecer que o conhecimento da imagem é de fundamental importância não só para o desenvolvimento da subjetividade mas também para o desenvolvimento profissional” (p.20).
Então, o ensino da arte na escola passa por mudanças significativas que não só atestam e conferem à arte sua importância máxima, como a colocam no “topo” no que se refere às bases curriculares. A arte, no fim, é a base de todas as demais disciplinas, no que se refere ao uso da imagem, dos códigos visuais e de sua relação com a identidade humana. É de fato, uma grande “área do conhecimento” e não pode ser ignorada e relegada à inutilidade no ambiente “acadêmico” como nos confirma Tourinho (2008) quando diz:

Tenho a impressão de que se perguntássemos aleatoriamente a opinião de pessoas sobre se a Arte deve ou não – e porque – ser disciplina obrigatória em todas as séries do ensino fundamental e médio, provavelmente teríamos um grande número de posições contrárias a este ensino. [...] a situação seria diferentes se, em vez de Arte, perguntássemos sobre outras áreas do conhecimento como Português, História ou Ciências. [...] disputa entre Arte e outras áreas ditas “acadêmicas” no currículo da escola. A hierarquia do conhecimento escolar – explícita ou implícita – ainda mantém o ensino de Arte num escalão inferior da estrutura curricular.
(TOURINHO in Barbosa, 2008c, p.28)

Para Tourinho (2008), as diferentes interpretações dadas ao que se diz serem argumentos que justifiquem a presença da Arte como disciplina no currículo escolar se resumem em “ausência de conhecimento teórico e prático da educação e da Arte e de sua função pedagogia na escola” (p.33).
Diante das discussões em torno do tema, Tourinho nos fala de uma perspectiva “relacional e contextual”, onde aponta a importância de se contextualizar o ensino da arte ao meio em que é praticada, ou seja, quando o aluno é capaz de perceber a relação entre o que ele vê, assimila, associa à sua realidade, toma como verdade, aprende a usar como ferramenta também intelectual e não apenas “manual”. Fazer arte por simples expressão, mas que expressão? Toda expressão tem um caráter conceitual. Ver, refletir, decodificar, associar e depois produzir. Existe uma imensa fonte de transmissão de conhecimento neste âmbito.
Estes saberes, segundo Tourinho (2008), já estão organizados e sistematizados, no entanto, em todo o processo de mudança, nos complementa com a afirmação de que “como transformar é inevitável – relacionar e contextualizar exige, no mínimo, esta disposição – o ensino da Arte na escola não está em busca de soluções. Está em busca de provocações” (p.33). O professor pode ser este “provocador”, que instiga o aluno a pensar, que incentiva o aluno a produzir pensando, expressando, se manifestando e se posicionando frente ao seu próprio “fazer artístico”, que não pode mais ser recebido como atividade manual,nem interpretado como aula “livre” ou de “atividades prazerosas”, “anti-estressantes” e de “liberação emocional”, como afirma Barbosa (2008c), “grito da alma” e que por si só não traz nenhum progresso. Barbosa (2008c), diz que “na educação, o subjetivo, a vida interior e a vida emocional devem progredir, mas não ao acaso” (p.21), ou seja, “se a arte não é tratada como conhecimento [...] não estaremos oferecendo uma educação nem no sentido cognitivo, nem no sentido emocional”, e conclui que a escola “deve se responsabilizar por ambas” (p.21).
Portanto, repensar o ensino da arte na escola, no contexto escolar cabe não apenas aos Arte Educadores, mas a comunidade escolar como um todo.
As tendências do ensino da arte na contemporaneidade concentram-se no uso da imagem como fonte de análise e produção de novos conhecimentos e leitura contextualizada da realidade do aluno, para o aluno e com o aluno como agente e não mais expectador apenas.


Vincent Van Gogh. "Noite Estrelada"



Criança de 8 anos. "Noite mais do que estrelada"


Como estas mudanças são percebidas pelos professores de arte, Barbosa (2008c) elenca num documento onde compara as situações de antes e de agora. Destaca que hoje, se tem mais compromisso com a cultura e com a história, ao contrário do que se praticava na década de 1980 onde se valorizava apenas a expressão pessoal do aluno, no conceito de que “todos somos artistas”(p.17). Esta concepção foi substituída pela “idéia de que todos podemos compreender e usufruir da Arte” (p.17).
A relação entre o fazer e a leitura da obra de Arte, denominada “apreciação interpretativa”, bem como sua contextualização histórica, social, antropológica e estética ganham espaço na sala de aula, tornando o aluno participante da construção destes conceitos.
Barbosa (2008c) diz que “só um saber consciente e informado torna possível a aprendizagem em Arte” (p.17).




Peça feita por crianças de 8 anos
Grafismo Indígena

Uma das mudanças mais significativas no ensino da arte é que a valorização da Cultura como um todo e em todas as suas particularidades e regionalidades, locais ou internacionais até, permitem conhecer o mundo em que se vive de um modo distinto do que se este conhecimento for adquirido apenas pela leitura da linguagem escrita ou oral. “Não podemos entender a Cultura de um país sem conhecer a sua Arte” (Barbosa, 2008c, p. 17). A arte por ser uma linguagem que aguça os sentidos, é capaz de transmitir significados que não podem ser transmitidos através de outras linguagens como o discurso oral e científico e sim, apenas através da imagem. Esta torna-se então passa a ser a matéria-prima utilizada nas aulas de arte. Ela por si só reúne todos os requisitos para a transmissão da mensagem através da visualização, contextualização e do sentir. É uma linguagem completa, entretanto, não universal, pois, depende dos códigos pré-adquiridos, ou seja, da alfabetização visual.





Segundo Barbosa (2008c), o conceito de criatividade também se ampliou. O que antes era somente criação e originalidade, num ato de livremente se produzir expressões artísticas, hoje é entendido como “desconstruir para reconstruir, selecionar, reelaborar, partir do conhecido para modificá-lo de acordo com o contexto e a necessidade” (p.18).
E conclui ainda que, na contemporaneidade a Arte é vista e debatida no ambiente escolar “tendo como um grande guarda-chuva o binômio: Arte como subjetividade e Arte como cultura na sala de aula” (Barbosa, 2008c, p.22).


Em todas as colocações de Barbosa, sejam elas referentes à história do ensino da arte no Brasil, nas práticas de sala de aula, nas metodologias ou currículos utilizados, nunca deixa de mencionar a tão importante formação do professor que precisa absorver todas estas mudanças, assimilando-as e decodificando-as a fim de ser a ferramenta que viabiliza o processo em sala de aula. “Mas, é responsabilidade excessiva sobre os ombros dos professores, eles precisam ter seu ego cultural reforçado e melhores salários” (p.21).
Outro autor que nos lança no assunto com outras perspectivas de olhar é Fernando Hernández, que apesar de ser espanhol e não brasileiro, inteirou-se das práticas educativas e da Cultura brasileira para escrever seu livro que trata da Cultura Visual como mudança educativa, citando no decorrer do livro os estudos sobre imagem desenvolvidos pela Arte Educadora Ana Mae Barbosa.
Hernández reforça a tese da importância da Arte na Educação e se posiciona enfaticamente quando fala da necessidade da formação do professor, das mudanças curriculares, e do reconhecimento da Arte como disciplina e área do conhecimento, tal como apresentado neste texto.
A intenção de trazer Hernández para este debate é com a finalidade de buscar um olhar “de fora” para analisar a arte na Educação – como ele mesmo denomina – que comprove e corrobore com os debates e idéias que circulam entre os Arte Educadores brasileiros. Não que se precise de uma certificação “internacional”, mas com a simples justificativa de que nossas mudanças com relação à percepção do ensino da arte na escola brasileira é mais do que atual, é uma tendência mundial e que nossos Arte Educadores, dedicados à pesquisa e à busca dos caminhos para a viabilização da Educação pela Arte não falam sozinhos, mas sim, em nome de uma classe, a dos educadores de arte. Hernández não só reforça as idéias de Ana Mae, como as utiliza em seu livro que fala do uso da imagem em sala de aula e das tendências atuais para o ensino da arte.


Recriação dos "mantos" de Arthur Bispo do Rosário




Quando a editora artes Médicas me apresentou a possibilidade de traduzir o livro Educación y cultura visual, que havia sido editado em 1997 pelo Movimento de Cooperação Educativa, a primeira coisa em que pensei foi que era me dada a oportunidade de completar outra volta da espiral que representa minha relação com os educadores brasileiros.[...] minha estada como professor convidado da Faculdade de Educação da universidade Federal de minas Gerais, girou em torno da formação dos professores e da necessidade de repensar a educação.[...] Permitam-me que lembre dessa trajetória. Em 1993, tive meu primeiro contato com alguns educadores brasileiros [...] convidado pelas professoras Dras. Regina Machado e Ana Mae Barbosa, descobri, por meio de um seminário com professores de diferentes níveis de ensino, uma parte da riqueza da onda de mudança que estava acontecendo na educação brasileira e o papel que os movimentos sociais tinham nesse processo. (HERNÁNDEZ, 2006, p.7).

Vincent Van Gogh. "Os Girassóis"



Criança de 5 anos. "Meus girassóis"


Os debates sobre o ensino de arte, no contexto brasileiro, atraíram este educador que aprofundou algumas questões do tema em análises filosóficas de grande importância para nossa reflexão.
Quanto ao currículo, Hernández (2006) escreve que a arte é “uma matéria sempre presente no currículo, ainda que em uma posição de relevante marginalidade” (p.9). e quando aborda a necessidade de renovação justifica que “não se pode continuar afirmando que a arte na educação gire em torno do desenvolvimento de uma série de habilidades manuais” ou ainda “propostas didáticas baseadas num conhecimento sem contexto” (p.9).
E por último, conceituações substanciais que remetem à reflexão sobre que bases e trajetória, caminha a Arte Educação no Brasil,

Projeto Dom Quixote
Trabalho interdisciplinar

Repensar a educação a partir da arte, da cultura visual, é fazê-lo, em parte, da posição dos perdedores, pois quase ninguém considera esses conhecimentos valiosos para a formação e para bagagem dos cidadãos mais jovens. [...] diante do poder do pensamento único, no qual dominam as leis do mercado, dedicar o livro a falar da educação escolar desde uma parcela de conhecimento caracterizada por sua inutilidade aparente pode ser uma ousadia. [...] não estamos diante de uma disciplina marginal se olharmos as páginas econômicas dos jornais, onde se oferecem conselhos para investir no mercado da arte ou se estuda os resultados econômicos da indústria do desenho, da publicidade e do lazer audiovisual. (HERNÁNDEZ, 2006, p. 27).



PARA SABER MAIS:

BARBOSA, Ana Mae . A imagem no ensino da arte. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2008a.

__________ (org.). Ensino da arte: memória e história. São Paulo: Perspectiva, 2008b.
__________ (org.). Inquietações e mudanças no ensino da arte. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2008c.
HERNÁNDEZ, Fernando. Cultura visual, mudança educativa e projeto de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 2000.
TOURINHO, Irene. Transformações no ensino da arte: algumas questões para reflexão conjunta. In: BARBOSA, Ana Mae (org.). Inquietações e mudanças no ensino da arte. São Paulo: Perspectiva, 2008. p.27-34.


fotos: arquivo pessoal

Um super abraço,
Dagmar

5 comentários:

Cristina schmidt disse...

Maravilha seu texto. É uma pena a Arte nao ser uma disciplina obrigatoria, como disse, a ela é a base de todas as outras disciplinas. Um bj

Dagmar disse...

Cristina, obrigada pelo seu comentário. Apenas ratificando, a Arte é uma disciplina obrigatória, a questão é que a LDB não define por exemplo, que ela deva ser ministrada em todas as séries. A Arte faz parte do núcleo comum de disciplinas no currículo brasileiro. O que não é definido são as séries ou anos, por isso, cada escola dsipõe sobre as classes que deverão ter Arte como parte de suas disciplinas. Algumas escolas determinam por exemplo, que apenas haverá Arte no Ensino Fundamental II ou Ensino Médio, ou então, em uma das séries. Outras, mais preocupadas com a questão priorizam este ensino e o adicionam à todas as séries desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. A cada instituição cabe a autonomia de decidir a respeito. Mas a Arte como disciplina obrigatória e não facultativa é regra no Brasil a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 5.692/71, ressaltando ainda que na época, denominada como "Educação Artística", era considerada ainda como atividade e não como disciplina, apesar de obrigatória.
Beijos
Dagui

Regina Artes disse...

Oi Dag, que delícia ficar aqui no seu cantinho, tem selinho pra você no meu cantinho....

Beijo!!!

Lili disse...

Oi, lindinha, gostei mais desse papel de fundo. Obrigada pelo presentinho.Tenha uma boa semana.Bjs

olimpia disse...

Dagmar, lá na praia de Santo André da Bahia, onde moro, temos 2 Ongs que trabalham com arte-educaçao... vou recomendar seu blog para o pessoal, com certeza.
abs,
olimpia