BEM VINDO AO MANIA COLORIDA

8 de dezembro de 2011

CULTO OU POPULAR? O QUE VOCÊ PREFERE?

Antônio Poteiro, Soltando pipas na favela - 2003 - Goiânia
Que conceitos você tem destes dois termos? O que entende por erudito e o que acha ser o popular? Normalmente as pessoas associam a palavra “erudito” a algo refinado, nobre, de “melhor” qualidade, mais caro e consumido por pessoas com maior poder aquisitivo. Não é assim? Já o popular é visto por muitos, como sinônimo de “brega”, sem muito valor agregado, tanto monetário, quanto em aparência. Quem sabe confeccionado com materiais baratos e pouco resistentes. Sem muita estética, ou pelo menos, não se encaixa no padrão de beleza “eleito” como sendo o politicamente correto, ou vigente. Algo lhe parece familiar nesta fala?
E na Arte? O que seria para você Arte Erudita e Arte Popular? Você diria que uma é mais significativa que a outra? Uma mais importante do que a outra? Pense um pouco e responda a si mesmo.
Talvez tenhamos crescido em um meio em que certas atividades ou rotinas, não passem realmente disto, “rotinas”. O ato de costurar uma roupa, uma linda colcha de retalhos ou uma cortina de tecido para aquela janela da casa, pode ser apenas um trabalho cotidiano realizado por pessoas que aprenderam o ofício e que pretendem economizar desta forma. Não se vê o ato de costurar tais peças, como um processo criativo, onde além do utilitário, seja almejado o “belo” ou um resultado “bonito”. Cada recorte de tecido colorido tem seu lugar na colcha, podendo formar lindas composições. A roupa pode apresentar detalhes novos e exclusivos, ou seja, somente aquela peça terá estas características. Em suma, o ato de criar se faz presente na confecção de objetos diversos, utensílios domésticos de toda ordem, desde as roupas, colchas, cortinas, tapetes, até potes de cerâmica, cadeiras, bancos, mesas e tantos outros objetos de uso cotidiano e, justamente por serem comuns à rotina diária, nos parecem inofensivos, sem graça, repetidos e comuns a ponto de não serem percebidos.
Pieter Bruegel, Jogos infantis - 1560 - Bruxelas
Artistas eruditos freqüentaram a academia, estudaram estética, técnicas, história e certamente imbuídos de talento, se propõe a criar suas obras como se fossem – e são – um texto visual complexo e filosófico, que necessita ser observado por algum tempo a fio, a fim de ser interpretado, lido ou compreendido. Ocorre que o artista popular, embora não tenha freqüentado as escolas de arte e desenho, não viva unicamente de sua criação, mesmo que deseje um dia fazê-lo, tanto cria textos visuais complexos, quanto filosóficos. Será? Existe diferença estética? Pode até ser que sim. Em algumas obras, os traços podem ser mais retilíneos e cuidadosamente acabados. As cores estudadas e postas sobre a tela, papel ou outro suporte qualquer, mas sempre “pensada”, nunca “jogada” ao léo. Em outras, as proporções podem parecer desrespeitadas, as cores usadas indiscriminadamente e as formas podem apresentar acabamentos aparentemente “grosseiros”. Pode ser. Depende de quem vê, como vê, o que sabe a respeito e o que pensa sobre arte. Neste caso, inevitavelmente entramos no campo “gosto pessoal” e desde pequenos ouvimos dizer que este, não se discute. Será que não?
A Professora Leda Maria de Barros Guimarães, da Universidade Federal de Goiás, há muito pesquisa sobre esta dicotomia existente em Arte Erudita e Arte Popular. Em seu artigo intitulado “Arte e Cultura Popular: variações em torno da construção de conceitos e valores” aborda de forma consistente, a linha tênue que envolve a compreensão do conceito de arte popular, naïf, primitiva, ingênua, folclore, cultura popular e suas “diferenças” com a denominada arte culta ou, erudita. Toca num ponto delicado e de certa forma complexa, no entendimento do senso comum, que acaba por provocar uma classificação qualitativa nas diversas expressões artísticas e culturais. BACCARELLI (1996) diz que, nas civilizações primitivas, a arte tinha caráter funcional e era valorada pelo material empregado e técnica utilizada, não havia distinção. Todas as artes tinham o seu papel ou finalidade, fosse mágico, ritualístico ou evocativo. Com o advento da Revolução Industrial há o surgimento de artefatos industrializados e da mecanização dos processos de produção. O Século XIX reformula o cenário da Arte, com o surgimento de uma sociedade burguesa, da valorização da cultura urbana e o acréscimo de conteúdo filosófico à Arte, atribuindo à criação um maior envolvimento intelectual, compromisso com o pensar. Este fato estabelece uma divisão entre o Erudito e o Popular, onde ao primeiro é atribuído o termo “Belas Artes” e considerado arte superior e, ao segundo arte de menor valor. Assim, por exemplo, a arte popular é percebida alheia à História da Arte brasileira, numa via paralela e não como parte dela. Uma separação que provoca distanciamentos conceituais “equivocados” na compreensão do texto apresentado pela Professora Leda. A professora propõe justamente a condição de não haver “a priori” categorias que separem a arte neste dois blocos-ilhas, que ao fundo do oceano acabam unidas.
Sobre esta questão, Ana Mae Barbosa apresenta uma definição bastante elucidativa, quando fala da diversidade artística e cultural no ambiente escolar. Ela diz que “a escola seria o lugar em que se poderia exercer o princípio democrático de acesso à informação e formação estética de todas as classes sociais” , o que nos aponta uma das grandes questões desta classificação dicotômica, que atribui a arte popular a um valor monetário menor, ou advinda de sujeitos pertencentes à classes de baixa renda, ou de menor escolarização perfazendo assim, o raciocínio de distribuição dos bens culturais, onde a classe dominante rege também os valores estéticos da arte. Ana Mae ainda completa que, desta forma, a escola estaria “propiciando na multiculturalidade brasileira uma aproximação de códigos culturais de diferentes grupos”. Assim podemos dizer que as diferentes representações estéticas compreendem códigos culturais também diferentes e não, superiores ou inferiores, apenas diferentes. Neste caso, o que se classifica como erudito faria também parte deste conceito de “apenas diferente” e não superior. Considerando que a arte estebelece-se na sociedade de acordo com seu contexto social, econômico e político e, assim sendo transfere em suas representações estes mesmos códigos, não é possível mensurar determinados valores. Mas é possível estabelecer uma relação arte-cultura, ou arte como produto cultural e que depende dos códigos simbólicos de seu meio e de sua realidade, portanto não sendo passível de classificação qualitativa.
Somente na segunda metade do Século XX é possível perceber uma visão mais democrática neste sentido, na tentativa de suprimir as diferenças de classe, o que seria talvez um retorno ao conceito primitivo de arte, onde seu valor não está exatamente associada ao grupo social em que é produzida, mas em relação ao discurso que carrega, sendo indiferente pertencer à classe de poder dominante ou não.
 E agora? O que você pensa a respeito? Observe estas duas obras:

Poteiro - Soltando pipas na favela - 2003 - Goiânia

Bruegel, Jogos infantis - 1560 - Bruxelas




A primeira, de Bruegel, mostra a realidade de grupos infantis que se divertem no "pátio" das casas, ou no espaço de uso comum da colônia. São crianças simples, filhos de agricultores e trabalhadores rurais e é possível perceber uma variedade enorme de brincadeiras diferentes. Entre arcos, cordas, varinhas, pega-pega, se veem rostos tristes e endurecidos, tal qual as crianças eram vistas na época, como "pequenos adultos", ou miniaturas de adultos. No entanto revela a ânsia de libertar-se na brincadeira. Na Europa de 1560, não haviam condições sanitárias adequadas, nem escolas, nem uma preocupação com a infância, crianças eram mais uma boca para comer, a doença assolava famílias inteiras. Com frequência serviam aos nobres em suas casas como pagens, empregados sendo pequenos trabalhadores e tendo sua infância tolhida, de certa forma. No entanto, a brincadeira e o brinquedo sempre se fazem presentes nesta fase da vida do ser humano. Brincar é a marca da criança.

Na segunda imagem, temos uma representação feita por um artista considerado popular. Antônio Poteiro retrata crianças brincando de soltar pipas. Cenário: a favela, mundo hostil e cruel, onde a marginalidade não pede licença e crianças são expostas diariamente à violência urbana, mais modernizada àquela representada no quadro anterior. Crianças sempre brincam! O que difere uma imagem da outra, além da estética das imagens, são as cores, a luminosidade entre uma e outra. Uma parece mais entristecida por suas cores e a outra mostra, que apesar das dificuldades cotidianas a alegria se faz presente nas brincadeiras infantis. Onde há crianças, há alegria. Considerando as duas representações, podemos dizer que dizem a mesma coisa em épocas diferentes e a pergunta é: PORQUE UMA É CONSIDERADA CULTA E A OUTRA POPULAR? Em outras palavras: superior ou inferior, segundo o texto da professora Leda?

Para saber mais:

BARBOSA, Ana Mae . A imagem no ensino da arte. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2008.


GUIMARÃES, Leda Maria de Barros. Arte e cultura popular: variações em torno da   construção de conceitos e valores. Módulo 8. Grupo Arteduca, Brasília: IdA/UnB, 2011.


Até mais,
Dagmar


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