BEM VINDO AO MANIA COLORIDA

4 de dezembro de 2011

NOVIDADE NO QUE É DE COSTUME

            Habituar-se a olhar, não apenas olhar, mas olhar e ver. Não raro observamos o cotidiano como algo que se repete diariamente, inclusive seguindo a mesma ordem do dia, numa enfadonha roda que gira e gira retornando sempre ao mesmo ponto. Este processo se torna tão automático e mecanizado, que não percebemos pequenas mudanças de rota, entre uma ação e outra. Assim também o é com relação ao que observamos. Observar, na verdade sem ver realmente o que se passa. 

Frequentemente, a arte que existe em nossa vida cotidiana é invisível. No entanto, quando a arte local é interpretada a partir de seu contexto, essa interpretação aciona não só uma maior compreensão da arte em si, mas também uma análise crítica do sistema  de produção e dos valores nela refletidos. (BASTOS in BARBOSA, 2008, p. 232)

            Ensinar a ver é papel dos pais e também dos professores. Atentar para detalhes, cores, formas, nuances de movimento. Atentar para a novidade no velho, no usado, no teoricamente esquecido. Perceber quantas informações podem estar contidas num pequeno objeto decorativo, naquela toalha bordada em ponto cruz, que cobre a mesa da sala, ou ainda, na colorida colcha de retalhos que decora a cama no quarto. Quem fez, onde fez, com que material executou a tarefa e porque faz estas “coisas”... . Objetos ou artefatos confeccionados tanto pela necessidade utilitária, quanto pelo desejo de criar algo também belo. Buscas que ajudam a revelar um pouco da história do artista-artesão e também de seu contexto, sua realidade. Histórias e memórias estampadas na arte e nos objetos de uso cotidiano, aparentemente inofensivos e também desprezados pelo nosso observar. “A repetitividade, familiaridade e as contradições da vida cotidiana a tornam muitas vezes invisível” (BASTOS in BARBOSA, 2008, p. 234).
            Um estudo etnográfico propõe e supõe questionamentos inicialmente “inocentes”, mas que levam a respostas profundas e reveladoras. “Erickson (1986) enfatizou a necessidade de prestar atenção aos acontecimentos do dia-a-dia, convidando educadores ‘a transformar em estranho o familiar’, estranho o suficiente para ser percebido.” (BASTOS in BARBOSA, 2008, p. 234).  Aprender a observar pode estar ligado ao apreço que se tem por certas estéticas. Bastante relacionado ao gosto pessoal, que por sua vez é desenvolvido ao longo de nossa existência, tendo iniciado ainda na mais tenra idade. O que nos atrai, consequentemente nos prende ao olhar. Assim doamos mais tempo ao “objeto do desejo” e, por sua vez capturamos maior número de informações, a fim de satisfazer nossa curiosidade. Uma relação de afeto com o que observamos faz com que busquemos as novidades do objeto observado.   Cada novo olhar, traz também novas informações.
            O texto visual de cada objeto observado pode revelar histórias de vida ou de um povo. Pode mostrar os modos de uma sociedade, sua economia, suas tradições e crenças. Basta OLHAR, VER E QUESTIONAR.

REFERÊNCIAS

BASTOS, Flávia Maria cunha. O perturbamento do familiar: Uma proposta teórica para a Arte/Educação baseada na comunidade. In: BARBOSA, Ana Mae (org.). Arte/Educação contemporânea: consonâncias internacionais. São Paulo: Cortez, 2008. p.227-243.

SCHILICHTING, Julia Campello. Métodos e técnicas em antropologia cultural. Texto de apoio. Arteduca IdA/UnB, 2011.


ESTUDO ETNOGRÁFICO

"Namoradeiras"

Cidade de Goiás – GO

Peças decorativas em cerâmica. Barro moldado, queimado em forno e colorido com tinta, na caracterização do feminino. Artesanato popular tradicional encontrado em várias regiões do país. Utilizado na decoração de residências, geralmente dispostas nas janelas das casas, podendo ser vistas da rua. As formas e cores utilizadas representam mulheres brasileiras num misto de etnias. Remete à uma paisagem bucólica. Um urbano simples, rural. Expostas nas janelas como quem observa tranquilamente o transeunte da rua. Alguém que tem tempo para apreciar a paisagem e está fora da rotina conturbada de uma cidade grande. Portanto, uma personagem do interior, da cidade pequena. Cores, estampas, babados, vestidos, brincos, pulseiras, batom, penteado e enfeites no cabelo simbolizam a feminilidade e a vaidade da mulher, aqui simbolizadas através da beleza e exuberância da mulher negra. “Namoradeiras”, nome dado a estas peças também por estarem à espreita na janela, ou sempre à espera de alguém, de um amor.


COLCHA DE RETALHOS



Mostra Cultural numa escola da rede privada em Goiânia. Tema: Goiás – Turma de 4º ano do Ensino Fundamental. Foi feita uma simulação do quarto de Cora Coralina e esta colcha de retalhos estava sobre sua cama.
Colcha de tecidos, com fundo preto e sobreposição de pequenas flores de retalhos coloridos. Costura. Técnica muito utilizada no interior, longe das grandes cidades. Figuras ordenadas em fileiras, quase seguindo uma ordem na disposição das cores. Patschwork. Revela o jeito simples de viver, decorar e “cuidar” da casa. Delicadeza nos detalhes e nas formas utilizadas. Artefatos como toalhas de mesa, cortinas, colchas, cobre-leitos, mantas para sofás, almofadas coloridas, assentos para cadeiras, panos de prato, tapetes, protetores de fogão, geladeira e tantos outros servem para a proteção de peças e mobiliários, bem como revelam certo “capricho” e apreço pelo “lar”. Em algumas regiões do país, estampas e formatos derivam da colonização açoriana, portuguesa. Em outras, a tradição de povos europeus, como os alemães, poloneses, italianos e outros. 


VASO DE CERÂMICA


Mostra Cultural numa escola da rede privada em Goiânia. Tema: Homenagem à artista Goiandira. Várias peças trabalhadas com areia colorida, entre elas, vasos de barro.
Peça de cerâmica trabalhada com areia colorida. Detalhes geometrizados semelhantes à grafismos indígenas. Vaso utilitário decorado com areia colorida, imitando grafismos indígenas e homenageando a artista GOIANDIRA. As peças de barro produzidas pelos índios marajoara, denominadas de “cerâmica marajoara” possuem características semelhantes. Peças tradicionais produzidas em barro, com a finalidade utilitária, como potes, moringas de água, copos, jarros, panelas e vasos. Retrata a vida no campo e do homem rude, do sertanejo e da cozinheira em volta do fogão à lenha a preparar os alimentos nas panelas de barro. Os detalhes coloridos que representam grafismos indígenas, com desenhos que imitam a natureza, utilizando areia, mineral natural, remete à simplicidade, ao básico e á valorização do detalhe decorativo nas peças de uso cotidiano. 


Habituar-se a observar o que está à nossa volta, pode revelar uma faceta oculta do belo. 
Dagmar




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