BEM VINDO AO MANIA COLORIDA

16 de março de 2013

ARTE TERAPIA COMO RECURSO NO AMBIENTE ESCOLAR








Não aprende apenas coisas. Pense nelas e constrói sob teu desejo e imagens que rompam a barreira que asseguram existir entre a realidade e a utopia: vive num mundo côncavo e ôco, imagine como seria uma selva queimada, detém o movimento das ondas nas arrebentações, tinge o mar de vermelho,segue algumas paralelas até que te devolvam ao ponto de partida, coloque o horizonte na vertical, faz uivar o deserto, familiariza-te com a loucura.
José Augustin Goytisolo

            A expressão artística não engloba somente elementos materiais que resultam num produto estético tangível. A manifestação vai para além do aparato visual, de modo a trazer nele uma carga de subjetividade que a torna única e diretamente ligada ao indivíduo que a produziu. Esta subjetividade, objeto de estudo, consiste em fatores psíquicos e emocionais que são automaticamente transferidos para a obra de arte, ou produção artística, seja ela plástica, musical, de expressão corporal ou teatral. Existe um vasto campo para a conexão entre o estado de espírito e a personalidade com os gestos expressivos e os movimentos no exato momento do “fazer artístico”.
            A Arte Terapia é definida como o conjunto de ações e materiais diversificados que permitem ao indivíduo a espontaneidade na expressão. Promovem a expressão, a livre expressão, ou até mesmo temática, mas com liberdade de elaboração de novos conceitos e que promove o autoconhecimento do ser.

Arteterapia é o termo que designa a utilização de recursos artísticos em contextos terapêuticos; Esta é uma definição ampla, pois pressupõe que o processo do fazer artístico tem o potencial de cura quando o cliente é acompanhado pelo arteterapeuta experiente, que com ele constrói uma relação que facilita a ampliação da consciência e do auto-conhecimento, possibilitando mudanças. É um campo de interface com especificidade própria, pois não se trata de simples “fusão” de conhecimentos de arte e de psicologia. Isso significa que não basta ser psicólogo e “gostar de arte” ou ser artista arte-educador e “gostar de trabalhar com pessoas com dificuldades especiais”. A formação em arteterapia além das matérias de arte e psicologia necessárias, compreende também um corpo teórico e metodológico próprios, que abrange conhecimentos da história da arteterapia, conhecimento dos processos psicológicos gerados tanto no decorrer da atividade artística como na observação de trabalhos de arte, conhecimento das relações entre processos criativos, terapêuticos dos diferentes materiais e técnicas, conhecimento dos fundamentos teóricos e metodológicos da abordagem, vivência pessoal e prática supervisionada. A Arteterapia é um caminho através do qual cada indivíduo pode encontrar possibilidades de expressão para, através de técnicas e materiais artísticos, processar, elaborar e redimensionar suas dificuldades na vida. (Trechos extraídos de Ciornai, S. "Percursos em Arteterapia", 2004)

            Na escola, existe a necessidade de se promover o ambiente criador, justamente para que o aluno se desprenda da rigidez estética, que muitas vezes o impede de produzir com mais liberdade, e também para que amplie sua capacidade de reflexão acerca da realidade, de seu contexto, de si mesmo, do outro e da sociedade em que vive. Assim, se vê como agente transformador, capaz de interagir em seu meio utilizando-se das linguagens artísticas para tanto. A Arte Terapia apresenta métodos próprios de ação e de reflexão acerca da expressão do indivíduo e se utiliza deles para que o indivíduo adquira autoconhecimento e assim saiba como manifestar-se através das linguagens da Arte e, posteriormente em suas atitudes perante a vida.
            Quanto a sua aplicabilidade na escola, há que se considerar o fato de que o professor não é exatamente um psicólogo e pode também não ser um especialista em arte, mas no entanto ele também volta suas ações para o desenvolvimento da expressividade de seu aluno. Ele procura desenvolver no aluno a sua capacidade de comunicar-se, promove momentos em que este possa expressar seus sentimentos e, em geral usa dos meios da arte para isso. Um exemplo é quando o professor pede para o aluno desenhar sobre o que sente quando ouve determinada canção ou melodia.  Herbert Read, em sua obra “A educação pela arte” aborda vários aspectos da criatividade humana e do exercício dela, bem como os fatores que influenciam na imaginação no momento da criação e das obras como sendo frutos das individualidades e, desta forma conecta a análise proposta aqui com a educação.
            Existem dois fatores de relevância essencial quando se aborda Arte Terapia e Arte. Dentro da escola, a disciplina de Arte é obrigatória e tem conteúdos próprios. Dentro da proposta do ensino da arte, o professor precisa considerar o conhecimento historicamente construído e que traça a linha do tempo da arte, contextualizando o artista neste ou naquele momento e lugar. Também precisa abordar as diversas linguagens artísticas, suas formas de expressão através dos grandes movimentos artísticos, de modo a situar o aluno com relação a importância de cada um, em cada época. Deve apresentar os conceitos do belo e do feio, deve falar sobre a estética e a poética de uma obra, sua representatividade para a sociedade. Estabelecer paralelos entre diferentes formas de expressão, comparativos entre elas. Propiciar ao aluno espaço para que possa conhecer materiais e técnicas, a fim de saber utilizá-lo. Além do saberes técnicos, o professor precisa dar ao aluno a possibilidade de interagir com estas linguagens e perceber que ele pode também expressar-se. Propor situações em que cada um possa pensar a respeito da própria produção como sendo uma atividade que vise a algum tipo de comunicação. Dar ao grupo a possibilidade de realizarem atividades coletivas e colaborativas e também, momentos em que cada um possa voltar-se para dentro de si na busca de respostas ao problema em arte apresentado. Tudo isso aliado a um produto final que leve em consideração uma apresentação estética desejável, isto é, com o bom e correto uso dos diferentes materiais e técnicas aprendidos anteriormente. Para tanto, o professor precisa estar atento, ter conhecimento e domínio sobre o que está realizando e sobretudo ter a sensibilidade para perceber as individualidades de seus alunos. Saber que cada um tem seu ritmo, tem conceitos simbólicos próprios e acepções sobre imagem que provém de sua prévia vivência no meio, bem como uma visão de mundo particular e coletiva construída ao longo de sua vida. Assim sendo, cada produto artístico será único e encerrará em si, muito da subjetividade do autor.

É verdade que sugerimos que todas as obras de arte ajustam-se, de certo modo, às leis estruturais características do universo físico, mas seria uma certa injustiça argumentar que toda expressão, e, na verdade, toda percepção é inerentemente artística – isto é, que ela tende a buscar forma ou configuração esteticamente satisfatória. (READ, 2001, p.31)

            O autor alerta para o fato de que existe uma linha tênue, mas divisória entre os produtos resultantes do fazer artístico. Questiona, na verdade, se tudo é arte e se os resultados de uma pura e simples expressão, pode ser considerada arte. Não é uma inocente afirmação e por isso, o professor precisa ter clareza quanto aos métodos que utiliza enquanto ministra suas aulas. Até onde a Arte Terapia se ajusta dentro da sala de aula e com que finalidade ela pode ser aplicada? Até onde a arte pela arte é trabalhada no ambiente escolar e o que pode ser retirado do aluno em troca desta aprendizagem? Porque não se pode esquecer de que se trata de uma aula de arte, assim como Línguas, Exatas e outras. Sendo uma aula e tendo conteúdos, também será passível de avaliação. Mas que padrão de avaliação? Que padrão de estética será cobrado do aluno? Por outro lado, a arte Terapia é um campo riquíssimo para desenvolver no aluno a capacidade de conhecer-se e desta forma responder ao mundo externo através das linguagens artísticas. Estar apto a usar adequadamente dos materiais e das técnicas, bem como refletir no âmbito filosófico da obra estudada, para poder produzir uma expressão genuína e crítica conectiva com a realidade estudada e a própria realidade. Não raro, em classes de adolescentes, o professor enfrenta os “nãos”. “Não sei desenhar prô”, ou então, “Profe de artes, eu não gosto de pintar e não consigo fazer bonito”, ainda “Pra quê eu preciso fazer isso? Isso cai no vestibular?”. Quando o aluno não vê a conexão da arte com seu mundo, torna-se premente uma maior preocupação por parte do professor em avaliar seu próprio trabalho ou seu conceito sobre a função da arte na escola e na sociedade. O grande desafio está em, justamente, balancear o conteúdo de arte com o desenvolvimento da capacidade de expressão do aluno, de modo reflexivo. O aluno deve adquirir os saberes necessários que o tornem tanto um fruidor da arte, apreciador, como um agente ativo na produção desta.
            Para tanto, a função da escola neste papel não é formar o artista, mas dar a todos a possibilidade de usufruir deste bem cultural, fazer parte dele e tomar para si este patrimônio ajudando a construir a história e sentindo-se parte dela.
            Ao professor então, cabe a tarefa de reunir os mecanismos necessários para o desenvolvimento desta proposta, promovendo aulas em que transmita história da arte, contextualize obras, artistas e épocas e consiga que o aluno perceba a arte como linguagem , como expressão fruto de momentos, sentimentos e visões de mundo coletivas e particulares e, para tanto, utilize-se das ferramentas que dispõe. Uma delas é a arte Terapia.
Porque afinal, “de um ponto de vista científico, cada tipo de arte é a expressão legítima de um tipo de personalidade mental.”(READ, 2001, p.30)

É ou não é?
Pense!

Um excelente sábado a todos!
Dagmar 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

READ, Herbert. A educação pela Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2001.


Internet:

<http://www.sedes.org.br/arteterapia.htm>, acesso em 30/05/2011.

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