BEM VINDO AO MANIA COLORIDA

22 de julho de 2014

VOCÊ LARGARIA TUDO?

Interessante notar as insistentes aclamações nas redes sociais e na internet como um todo, sobre o tema "mude de vida", "seja dono de seu próprio negócio", "ganhe dinheiro trabalhando em casa"...
Isso só vem demonstrar um anseio antigo, que todos já devem ter experimentado: o de ser dono do próprio nariz. O fato é, quem não é dono de seu próprio nariz? Independentemente de onde se está, se está por opção, por escolha. Certo?
Mas a questão não é esta.
Hoje, mais do que em outras épocas, o foco é na administração de pessoas, de talentos, de capital humano. Foi-se o tempo em que a mão de obra era isso, mão de obra apenas. 
As pessoas querem mais. Anseiam por conquistas reais e positivas. Aquela viagem, a casa própria, o primeiro carro... mas principalmente realizar-se profissionalmente. Embora tudo esteja ligado ás necessidades básicas das pessoas e o trabalho em si, se mova em torno delas, não se pode negar que a satisfação pessoal no ambiente de trabalho move montanhas.
Descobrir o que nos dá prazer e levar isso adiante, como fonte de renda e satisfação também profissional, porque não? Experimente planejar uma mudança.
Você decide! 

Um ótimo dia.




Planos alternativos de carreira: é hora de partir para um negócio próprio?


Atire a primeira pedra quem nunca pensou em largar a vida corporativa e ser dono do próprio nariz. Horários inflexíveis, relatórios sem sentido, chefes intolerantes, tarefas repetitivas, clientes intransigentes, viagens, colegas mal humorados, reuniões intermináveis e funcionários que só fazem reclamar são parte da extenuante rotina, existente desde os tempos de Adam Smith, defensor dos benefícios da divisão do trabalho. De uma maneira menos robotizada e com supervisão mais branda, a verdade é que continuamos a vender nossa mão de obra por pelo menos oito horas diárias, tal qual Charles Chaplin em Tempos Modernos.

A certeza do salário no final do mês, as férias remuneradas, o fundo de garantia, o plano de previdência, os bônus e as participações nos lucros, o plano médico e odontológico, o carro da empresa, a gasolina paga, a previdência complementar, o reembolso educação, o vale alimentação, a cesta básica, a licença maternidade e as demais regalias costumam pesar bastante, pendendo a balança para o lado original. Resignados, engolimos mais um sapo para a nossa coleção, sublimando nossa insatisfação até que o próximo ataque de inconformismo apareça.

Para completar a equação desfavorável, já se foi o tempo em que um profissional costumava passar a vida inteira em uma empresa. A maior competição trouxe a necessidade de reduzir custos, o que atrelada à menor lealdade de lado a lado fez com que executivos maduros e qualificados disponíveis no mercado se tornassem lugar comum. Sem ofertas de trabalho adequadas ao seu perfil, acabam partindo para o plano B sem preparação prévia, num momento em que suas finanças e mente encontram-se fragilizadas.

Uma saída para esta armadilha está no planejamento de carreiras alternativas, investindo parte de sua renda e tempo disponível em um novo negócio ou profissão enquanto ainda se está na ativa, construindo redes de proteção para a aposentadoria ou eventuais cortes de pessoal, além é claro da satisfação em conduzir um outro empreendimento. Para ilustrá-la, trago a experiência de Steve Jobs e do escritor Chris Guillebeau, autor da A startup de $ 100, cujo livro traz histórias inspiradoras de gente que fez esta transição. Vejamos algumas dicas.

Convergência: é a intersecção entre algo que você gosta de fazer ou é bom fazendo (de preferência os dois) e algo pelo qual as pessoas também se interessam ou estão dispostas a pagar. Um colecionador de soldadinhos de chumbo talvez não tenha um grande mercado. Enologia, gastronomia, trabalhos artesanais, jardinagem, esportes radicais e viagens por outro lado, costumam despertar o interesse de bastante gente. Quando a paixão ou a habilidade se encontram com a utilidade e uma proposta de valor atraente, há chances de um negócio interessante surgir.

Transformação de habilidades: diversos projetos começam com o uso de habilidades relacionadas. Para elucidá-la, pensemos em um professor. Em geral são bons não apenas lecionando, mas também em áreas como comunicação adaptabilidade e controle de pessoas, as quais podem ser utilizadas para abrir um negócio. Pense em você agora. Quantas vezes não ouviu ou disse para outra pessoa que era hábil em determinada atividade, mesmo sem exercê-la? Há ex-jogadores que se deram bem como treinadores, outros como comentaristas.

Juntar os pontos: a preocupação com planos alternativos de carreira costuma chegar com os cabelos brancos, quando decepções, frustrações, desafios e vitórias compõem o que chamamos de experiências passadas. Steve Jobs relatou de maneira perfeita este sentimento em seu famoso discurso proferido aos formandos de Stanford: “Você não consegue ligar os pontos olhando para a frente, só consegue ligá-los olhando para trás. Desta forma, há que confiar que os pontos se ligarão algum dia no futuro”. Apesar disso, planejamento e objetivos claros não atrapalham.

Enfim, convergência mais transformação de habilidades mais juntar os pontos, costumam ser sinônimo de sucesso para iniciar um plano alternativo de carreira. Pare, pense e faça um inventário de suas habilidades, vocações e hobbies, assim como se desejaria torná-la uma profissão no futuro. Com relação a viabilidade, identifique eventuais lacunas no mercado que ainda não estão cobertas, como especialista no tema creio que não será difícil. Faça entrevistas com futuros clientes, converse com especialistas e parta para a ação. Cabe a você abrir mão de sua comodidade e zona de conforto, dedicando um pouco de seu tempo para construir seu futuro. Só não vale dizer que não sabia.
Texto de Marcos Morita 

26 de junho de 2014

OS JESUÍTAS E SUA INFLUÊNCIA NO ENSINO E NA ARTE BRASILEIRA

O Ensino dos jesuítas

O jesuíta, segundo Sala (2002, p.17), de todas as ordens religiosas que se instalaram no Brasil no Primeiro século de nossa história foi “a que melhor soube dotar seus membros de um equipamento intelectual adequado à sua missão”. Denominada como Companhia de Jesus, fundada por Santo Inácio de Loyola e por São Francisco Xavier e introduzidos em Portugal no ano de 1521 por D. João III, receberam o Colégio das Artes e o Controle da Universidade de Coimbra. Foram designados para a tarefa de catequização e se empenharam a aprender a língua tupi, familiarizaram-se com os costumes indígenas e seus ritos a fim de conquistar sua confiança e então poder lançar mão dos preceitos católicos e converter o índio.
A ordem jesuíta foi a que mais se destacou por sua abrangência no território.


DA CONQUISTA À RETIRADA
Cena do filme "A missão"


O jesuíta, além de psicologicamente ativo pela idéia de catequese, é dotado de um aparato intelectual notável: sabe construir com terra, madeira ou pedra, conhece desenho e geometria, fala duas ou três línguas européias além do latim e se move tão à vontade nos trâmites dos negócios da corte quanto no convés de um navio. (SALA, 2002, p.17)

Veja a seguir, um trecho do filme "A Missão" de 1986, sob a direção de Roland Joffe e tendo em seu elenco Robert de Niro, Jeremy Irons e Lian Neeson retrata um importante período de nossa história e promove um resgate cultural fabuloso.

GABRIEL'S OBOÉ
cena do filme "A missão"

É importante destacar que outras ordens religiosas desempenharam este papel da educação no Brasil. No entanto, a Companhia de Jesus foi a que mais deixou registros que podem documentar sua atuação em terras brasileiras. Embora o objetivo principal desta ordem religiosa tenha sido a catequese, o processo demonstrou-se extremamente rico no que tange a construção da história artística brasileira. O envolvimento dos jesuítas na cultura indígena, de modo a conhecer suas lendas, crenças e histórias nativas forneceu subsídio para a utilização deste material na realização de festas, montagem de peças teatrais no intuito de convencer os indígenas da existência de um Deus e de um Demônio, do céu e do inferno.

Estes conhecimentos silenciosamente iniciaram uma espécie de “reescrita” da cultura indígena a ponto de trabalhar incansavelmente na tentativa de erradicação de alguns costumes considerados impróprios como a pintura corporal, os corpos nus, a poligamia e a antropofagia. Este processo de educação dos índios perdurou por cerca de dois séculos e meio. Neste período foram construídos colégios destinados à educação de professores, padres e de uma elite que seria de suma importância na disseminação do modelo cultural europeu na nova terra.

Contudo, acreditava-se que o trabalho dos jesuítas era genuíno e fiel aos preceitos cristãos e, por este motivo, acreditava-se que também não pretendiam praticar a erradicação covarde de uma cultura ou povo, mas a “salvação espiritual” da qual eram devotos, como nos apresenta Sala (2002),


Catequizar o gentil, enfrentar as heresias e combater os infiéis para maior glória de Deus. Não cabe aqui esmiuçar os antecedentes de cada uma dessas propostas históricas, mas são essas as reais origens da concepção missionária, que devem ser levadas em conta se quisermos entender numa perspectiva mais ampla o fenômeno das missões religiosas. (SALA, 2002, p. 42)
Este princípio tornou-os de certo modo “protetores” dos povos indígenas e passaram a dificultar o processo de escravização da mão-de-obra destes. Num dado momento, este fato passou a incomodar a Coroa portuguesa que ansiava pelo controle do território e, para isto, necessitava também da devoção e submissão dos índios à sua cultura.

A utilização da Arte como ferramenta de aproximação cultural e ensino de valores,ainda que usada no intuito educacional e catequizador, contribuiu significativamente para a construção da identidade brasileira na produção artística. Com tantos atributos e saberes manuais, os jesuítas em seu propósito de catequizar e “educar” o índio à cultura européia a fim de “domesticá-lo”, também lhe transmitiu fartos conhecimentos e ofícios ligados a Arte que deram o impulso inicial da produção genuinamente brasileira.
Durante boa parte do período que permaneceram na Colônia, os jesuítas detiveram-se no trabalho catequizador em meio aos povoados e junto às comunidades indígenas. Desta forma, puderam absorver consideravelmente a cultura local e, aos poucos, aproximar-se das crianças, dos adultos, bem como de seus líderes. Estreitaram laços e aprenderam a língua tupi-guarani. Este elo de comunicação permitiu que introduzissem novos hábitos, nova religiosidade e arrebanhassem para si a confiança dos mesmos.
Os jesuítas perceberam que esta forma de trabalho não surtia efetivamente um grande número de conversões. Estas não se consolidavam e era preciso manter o que fora conquistado, além de ser uma tarefa perigosa e árdua. Encontraram então nas missões um caminho mais sólido para a “pregação” e conversão dos novos fiéis. Estabeleceram então pontos missionários retirados dos povoados, onde colonizadores não pudessem ter fácil acesso a fim de praticar a escravidão dos índios.


Trailer do filme "A missão"


Nestes locais, os jesuítas começaram um processo de estruturação social do indígena. Nestes espaços haviam locais destinados ao desempenho de tarefas distintas como, comer, dormir e trabalhar. Começaram a separá-los por famílias e cada uma tinha seu espaço reservado, ao contrário do que acontecia nas ocas, onde todos permaneciam juntos e realizavam tudo no mesmo local. O tempo e o espaço começaram a ser redefinidos e organizados para que tivessem uma vida e hábitos “regrados” de acordo com o costume europeu.

Cena do filme "A missão"
Seria esta, uma mistura ou sobreposição de culturas? Fica a pergunta.


Dentro das missões, os indígenas aprenderam técnicas de trabalhos manuais e ofícios destinados a sua mantença e subsistência. As artes integravam grande parte de suas atividades cotidianas. O canto, a manipulação de instrumentos musicais, bem como a fabricação dos mesmos, ficava a cargo dos índios. O resultado desta atividade, embora totalmente voltada aos preceitos cristãos, enriqueceu consideravelmente a cultura local e contribuiu para a configuração de nossa produção de arte ao longo da história.



Influência do ensino dos jesuítas


O jesuíta transferiu para os indígenas seus conhecimentos e habilidades com o qual construíram suas moradias e ergueram inúmeras igrejas. O trabalho com a madeira no ofício da marcenaria dava espaço à produção de móveis, instrumentos musicais, entre outros utensílios e objetos de uso diário. No âmbito desta produção, verifica-se as “inovações” como detalhes ornamentais moldados com o barro no interior das igrejas e entalhes rústicos na mobília e artefatos de madeira.

NAS MISSÕES
cena do filme "A missão"

Por volta de 1557 apareceram as primeiras manifestações teatrais no Brasil. A utilização de elementos da cultura nativa e sua junção com os preceitos católicos e pedagógicos constituíram estas manifestações na Colônia. A iniciação da arte dramática brasileira se deve principalmente ao Padre José de Anchieta. A música e a dança indígenas, bastante expressivas, atraíram os jesuítas e logo houve uma fusão entre a música européia trazida por eles e as influências nativas. Também nesta época foram produzidas grandes quantidades de artesanato como tapetes, luminárias, móveis, utensílios de cozinha, moringas e outros artefatos. A arquitetura das igrejas, seu estilo e imagens presentes tinham destaque. Coloridas deram origem à pintura brasileira.
Ainda assim, segundo D’Araujo (2002), são quase que inexistentes os registros sobre a produção artística deste período da história brasileira. O que se sabe, advém do depoimento de viajantes, estrangeiros e missionários que viveram em meio a esta efervescência. O autor detalha ainda que, nos anos quinhentos os Colégios Jesuítas foram amplamente decorados com estatuárias de santos e ícones da Igreja Católica, ressaltando e criando ambientação propícia à meditação e direção da fé religiosa ao cristianismo.
Por volta do século XVII, com o crescimento expressivo dos povoados e com a larga produção de ouro, surgiu um grande número de comerciantes, artesãos, pequenos empresários e uma nova classe social dava seus sinais. Um considerável público para produções artísticas era formado. Assíduos de residências ricas onde realizavam-se saraus, também presenciavam o uso cada vez mais freqüente de instrumentos musicais. Estes grupos de novos apreciadores contribuíram para o surgimento de instituições laicas ligadas à Igreja Católica. As irmandades e ordens terceiras, como eram denominadas, formadas por leigos da igreja favoreceram o surgimento de grande parte dos templos setecentistas.
Estas irmandades eram economicamente ricas, como a igreja São Gonçalo e cada uma procurava se destacar mais do que a outra. Investiam vultosas quantias na ornamentação dos templos e foi quando então houve de fato a grande contribuição para o crescimento do patrimônio de arquitetura barroca religiosa. O que posiciona o Brasil no quadro de importante grandeza internacional.
 Estes acontecimentos tiveram maior destaque em algumas regiões do país como as Minas Gerais, Bahia e estados do sudeste e nordeste brasileiro.
Neste período destaca-se em Minas Gerais um importante ícone na produção artística brasileira. Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, mulato, filho de português com escrava negra, mesmo com grandes limitações físicas, revelou-se extremamente habilidoso na escultura e enriqueceu sobremaneira com a sua arte os templos ressaltando o barroco-rococó mineiro. Também Manuel da Costa Ataíde, que viveu depois de Aleijadinho, foi o nome mais expressivo da pintura brasileira. Esta “mistura” cultural favoreceu uma produção artística local que ressaltava simultaneamente símbolos religiosos e profanos que engrandeceram a arquitetura religiosa barroca.

Através da arte, começam a surgir sinais evidentes desta fusão cultural entre europeus, índios e negros, que dá vazão à produção brasileira.
No século XVIII, mais precisamente em 1759, os jesuítas foram expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal, deixaram para trás um trabalho que teve um papel de grande relevância no desenvolvimento artístico. Com eles cresceram as vilas e povoados, bem como igrejas, colégios e missões, seminários onde se praticavam a retórica, o latim, a leitura e a escrita, bem como a filosofia.
É inegável a herança cultural que permanece até os dias de hoje da colonização, mas também é evidente que toda esta construção foi a responsável pela extinção de uma cultura originalmente brasileira e anterior a esta. O processo de civilização do povo indígena determinou o fim quase que absoluto da cultura original de uma civilização culturalmente rica e nativa de nossa terra. Não seria errôneo afirmar que este é um dos pilares da matriz cultural brasileira, a origem de nossa arte e que recebeu influência de outros povos. Talvez a arte de outros povos entrou no Brasil e recebeu influência da arte indígena. A verdade é que os jesuítas e outras missões religiosas contribuíram muito para a elevação, propagação, organização e desenvolvimento de um estilo nacional, mesmo que influenciado pela cultura européia.

Os jesuítas, ainda que compartilhassem da cultura local e tomassem conhecimento dela, de modo a aprender seu idioma e permitissem fragmentos dela na música, nas artes plásticas, teatro e dança, enfatizavam uma visão etnocêntrica que favorecia a educação européia.
Maria Lúcia de Arruda Aranha diz que esta prática “fez com que sempre se desprezasse a cultura popular, influenciada pelos indígenas e negros e que permaneceu marginal e condenada à expectativa de homogeneização, uma vez que a cultura erudita e europeizada era o modelo a ser seguido.”
Fazendo um paralelo desta afirmação com a fala da Arte Educadora Ana Mae Barbosa em sua vivência com relação à elaboração de currículos de arte contemporâneos, é possível perceber nitidamente a herança cultural que permeia o ensino desta área do conhecimento:
No que diz respeito à cultura local, pode-se constatar que quase sempre apenas o nível erudito dessa cultura é admitido na escola. As culturas de classes sociais economicamente desfavorecidas continuam a ser ignoradas pelas instituições educacionais, mesmo pelos que estão hoje envolvidos na educação dessas classes. (BARBOSA, 2008a, p.19-20).
Podemos constatar que permanece, até hoje, a perpetuação das raízes coloniais no que se refere à transmissão do conhecimento artístico e que influencia diretamente na escolha do que “deve” ser abordado em sala de aula e o que é ainda hoje considerado “relevante”. Percebe-se aí um constante processo de se sobrepor uma cultura à outra por graus de importância. Seria a continuação da aculturação praticada pelos europeus sobre os povos indígenas?
No contexto histórico colonial, havia uma demanda que solicitava de alguns segmentos da sociedade o preparo para o trabalho. Isto ocorria através de uma educação informal. Apesar de não existirem ainda processos regularizados e formalmente estruturados para este ensino, existiam “escolas-oficinas” destinadas à formação de artesãos e outros ofícios. Estas escolas eram de iniciativa dos jesuítas. Embora nas missões este ensino já existisse, nos centros urbanos a realidade era outra. Segundo Cunha, “a raridade de artesãos fez com que os padres trouxessem irmãos oficiais para praticarem aqui sua especialidades, como também, e principalmente, para ensinarem seus misteres a escravos, homens livres, fossem negros, mestiços e índios” .

Contudo, permaneceu o desprezo pelo trabalho manual que, sendo ofício de escravos, índios e pobres, recebia a conotação de “trabalho desqualificado”.
Ainda no período do século XVII, o Brasil colonial se manteve “estacionado” se comparado ao progresso metropolitano europeu que avançava rapidamente, inclusive no âmbito cultural. Em decorrência também da Reforma Protestante, a Europa sofreu transformações sociais que influenciaram a educação. Enquanto isso, na Colônia predominava o ensino jesuíta que disseminava o pensamento católico e provocou a unificação do ensino no Brasil. Houve um nivelamento do ensino, na tentativa de tornar iguais, os “diferentes”.
Um fato bastante relevante e que influenciou certa mudança no panorama artístico e nas características da tradição colonial foi a invasão de Pernambuco pelos holandeses. Recife sofreu uma remodelação recebendo em sua paisagem, palácios, pontes, canais, lojas, oficinas e até um certo clima de tolerância religiosa. Tudo se deve ao fato de o príncipe Maurício de Nassau cercar-se de arquitetos, artistas e intelectuais que contribuíram para estas mudanças que propiciaram o desenvolvimento de uma cultura local diferente da dos jesuítas. Isto viria a favorecer considerável abertura e descentralização da produção artística, até então focada no sagrado.
Nassau, ao contrário da política praticada no restante da colônia, não pretendia utilizar a técnica da exploração de matéria-prima para enviar à Companhia das Índias, mas contribuiu para o desenvolvimento local e melhorias para a qualidade de vida da população de Olinda e Recife, bem como de seus arredores. Na comitiva de artistas que trouxe consigo estava Albert Eckhout, que em cenas do cotidiano retratou negros e índios, inclusive com os corpos nus.
Sob o olhar jesuítico, suas produções seriam consideradas profanas e “imorais”. Já no Rio de Janeiro, a pintura teve forte influência dos beneditinos e dos jesuítas. No período que compreende os séculos XVII e XVIII, surgiram grandes obras primas da arte religiosa brasileira. Dentre os artistas desta época destacou-se Manuel Dias de Oliveira Brasiliense, conhecido como “o Romano”, pintor retratista da família real. Um pouco antes da chegada de D. João VI e sua corte, o Rio de Janeiro estreitava relações com a metrópole portuguesa, recebendo algumas importantes influências na arquitetura advinda do Iluminismo europeu.
A área artística já desfrutava de uma abertura mais flexível e de certa autonomia nas temáticas das produções. Já faziam parte do rol de artistas da época, leigos e integrantes das confrarias e irmandades,bem como um grande número de escravos ou mulatos. Evento este que se ligava diretamente à transformação cultural das obras artísticas da época.

A temática considerada profana surge ao final do século XVIII. “A pintura aparece já como um fim em si mesmo e não mais como complemento decorativo religioso” (D’Araujo, 2000, p. 22). Evidentes sinais de mudança apresentam-se com a criação de um espaço para o ensino de desenho no Rio de Janeiro no ano de 1800. “Uma Classe de desenho e figura, criada por decreto real, sendo designado para dirigi-la Manuel Dias de Oliveira (o Romano), precursor do ensino artístico no Brasil.” (D’Araujo, 2000, p. 22).

Deste período até a chegada da corte portuguesa, o Rio de Janeiro recebeu fortes contribuições e incentivos no que se refere à atividade cultural carioca, com o surgimento de instituições, liberação da venda e leitura de livros. D’Araujo (2000) destaca que “os jesuítas possuíam gráficas clandestinas no país” e que “já não era considerada crime a edição de livros e jornais”, p.22.

Estas mudanças fomentaram a vinda de artistas europeus, sobretudo de músicos italianos, portugueses e austríacos para compor o grupo que formava a orquestra da Capela Real, dirigida pelo Padre José Maurício. O Real Teatro São João fora a primeira casa de espetáculos brasileira e surgiam também os primeiros cursos superiores. Havia uma preocupação de aproximar o ambiente colonial ao ambiente europeu que já vivia a efervescência cultural influenciada pelo Iluminismo e pela abertura religiosa favorecida pela Reforma Protestante que também possibilita novos “ares” para o cenário educacional. Permitiam-se discussões filosóficas para além das temáticas religiosas, trazendo à tona a produção grega que durante a Idade Média permaneceu “escondida” e inacessível por conta do domínio da Igreja Católica.
A Europa como um todo recebia desenvolvimento, crescimento, expansão comercial e política. Centros urbanos eram construídos e firmavam-se grandes instituições de ensino laico e religioso que se tornam ícones de referência mundial.

A Colônia, de certo modo, desejava acompanhar este ritmo. Principalmente nos anos que sucedem a chegada de D. João VI e sua corte ao Brasil. Pode-se dizer que a Colônia remodelou-se para receber toda esta gente oriunda de uma Europa modernizada e em franco desenvolvimento se comparada ao que existia no Brasil.

A diferença, ou o limite entre o que se considerava arte "superior" ou "inferior" acentua-se cada vez mais. Tanto, que ainda permanece arraigada em nossa cultura até os dias de hoje. Conceito que felizmente vem recebendo novas tendências e novo tratamento pelo governo nacional. Mas este assunto dá um outro artigo muito interessante e que em breve devo postar aqui.


Texto: Dagmar Amsberg
2009: São Paulo

PARA SABER MAIS:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da educação e da pedagogia: geral e do Brasil. São Paulo: Moderna, 2006.
ARAÚJO, Antônio Luiz d’. Arte no Brasil colonial. Rio de Janeiro: Revan, 2000.
BARBOSA, Ana Mae . A imagem no ensino da arte. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2008a.
BARBOSA, Ana Mae (org.). Ensino da arte: memória e história. São Paulo: Perspectiva, 2008b.
BARBOSA, Ana Mae (org.). Inquietações e mudanças no ensino da arte. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2008c.
GOMES, Laurentino. 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo: Planeta, 2007.
SALA, Dalton. Ensaios sobre arte colonial luso-brasileira. São Paulo: Landy, 2002.

Boa leitura!

O SUBLIME...

“[...] não, eu não tenho um caminho novo, o que tenho de novo,
é o jeito de caminhar.”
Thiago de Mello 1985, p.19
“Pegadas de Guache sobre papel Kraft”
Atividade realizada na Educação Infantil com uma turma de Jardim I / 2008
(HOLM, 2007)





O SUBLIME
A narrativa imprevisível está além de nossa compreensão. Se assumirmos que o sublime é algo que não podemos compreender; algo maior do que nós e sem limites, posso afirmar que tenho passado por recorrentes situações de narrativas sublimes com as crianças.

As crianças precisam sentir-se seguras para que o sublime aconteça. Se nós permitirmos o espaço e as oportunidades para a ocorrência do sublime, as crianças irão automaticamente experimentar um dia-a-dia artístico.

Nós, adultos, sempre temos em mente uma ou outra atividade para desenvolver com as crianças. Procuramos manter o foco em nossa idéia original.
As crianças, por seu lado, rapidamente descobrem novas possibilidades com os materiais apresentados e as relações entre eles. Nós continuamos tentando manter o foco em “nossa” atividade. Mas daí em diante é importante ousar ir além e ouvir: nós devemos ouvir as crianças.
Vejo nas entrelinhas tudo aquilo que não é nada.
Procuro sentir o sublime entre as crianças.
A narrativa sublime é como uma música que preenche o ambiente e depois desaparece.
Poderíamos até concluir que a atividade da oficina de arte é “apenas” um pretexto para o surgimento de novas relações e a expressão livre de nossos sentimentos. No entanto, ao mesmo tempo, as crianças estão ocupadas, usando as mãos.
Os materiais que são sentidos, tocados e manuseados não criam, necessariamente, uma “obra de arte” visível, mas “algo” próprio, que está além disso. Como adultos, precisamos melhorar nossa capacidade de ouvir. Ouse ouvir. Ouse sentir o que é sublime, o que vai além dos limites.
Gosto de estar no campo do desconhecido e imprevisível com as crianças.
Muito daquilo que considero artístico e criativo é o que geralmente se considera “bagunça” e acaba sendo recolhido ou jogado fora pelos adultos.
A narrativa sublime é varrida junto com o original, o diferente, o vivo e o não adestrado.
É aí que estão a energia e os valores artísticos, tudo o que as crianças inventam e as relações que estabelecem paralelamente às atividades de arte desenvolvidas.
O sublime é isso.
A CRIANÇA PEQUENA DEVE TOCAR E SENTIR OS MATERIAIS. A CRIANÇA APRENDE ATRAVÉS DOS SENTIDOS, TUDO É NOVIDADE.


Anna Marie Holm
Baby-Art: Os primeiros passos com a arte (p.6-7)
MAM e Editora Moderna
Anna Marie Holm nasceu na Dinamarca em 1951.É artista e membro da Sociedade Dinamarquesa de Autores.

6 de março de 2014

O BRASIL DE POTEIRO

Mais uma vez, Poteiro encanta a todas as idades com os seus "BRASIS" neste imenso país! 
O Brasil de Poteiro promete emocionar... não deixe de visitar e convidar aos amigos!

A partir do dia 13 de março, no Museu de Arte de Goiânia



Programe sua visita e convide aos amigos!

14 de fevereiro de 2014

PEQUENOS DETALHES

Fortaleza - Ceará
arquivo pessoal



Não temos tempo para detalhes. Tudo é sempre tão genérico em nossa vida, tão passageiro. Nada é absolutamente intenso, a não ser nossos problemas. Estes sim parecem ter dimensões gigantescas e tempos imensuráveis. mas quais são as cores da felicidade? Tons de amarelo, como dizia Van Gogh, ou tons de vermelho, como Henri Matisse? Mas vermelho não seria a cor do amor? Amarelo não lembra o brilho do sol? Porque nosso cotidiano é sempre tão "cotidiano"? Porque nossas rotinas parecem ser sempre tão "triviais"? Nada de novo, nada de espetacular na vida das pessoas comuns. Mas o que afinal é ser comum? Ou ser comum é parte da vida dos que se permitem ser... as possibilidades podem não ser muitas, mas os detalhes... estes estão sempre por perto, então porque não os percebemos? Mesmo num intenso dia de chuva ou tempestade, quando tudo parece estar coberto por uma negra névoa... lá está o detalhe. Basta olhar e ver. Talvez ele não mude seu dia, mas pode fazer toda a diferença para que não seja mais um dia trivial do seu cotidiano.
Superficialidades não sustentam as excentricidades por muito tempo. Nem a alma humana se alimenta de coisas supérfluas. Há que se buscar a essência do ser, aquela que vê os detalhes da vida e não apenas o lado obscuro da tempestade. O extraordinário pode estar bem ali na sua frente, bem ao alcance do seu olhar, porque não experimentar? Então o que é ser comum? Ser comum não é ser como a maioria das pessoas, que têm vidas simples ou rotinas repetitivas. Ser comum é não se permitir viver as pequenas surpresas do cotidiano consideradas triviais. Nada no dia a dia é completamente trivial, a vida não é feita de mesmices. Você é que é!
Mesmo num dia aparentemente chato, sem muito o que fazer lá fora é possível observar a gota molhada sobre as folhas, limpando-as e removendo a poeira que a impede de respirar à noite. A chuva que cai molhando tudo e fazendo emergir o cheiro de mato molhado que inebria as narinas e remete ao passado é trivial? Em uma fração de segundos é possível fazer uma viagem pelo tempo atravessando décadas, em uma simples fragrância. Isso é cotidiano?
Trivial é quem não percebe estas nuances de novidades em seu dia a dia, quem não consegue sair de si mesmo para observar o mundo e abrir a janela para a vida!

Dagmar

30 de janeiro de 2014

BAUHAUS = HOSTEL



Hospede-se na Bauhaus por 47 dólares a diária


PROJETO ABRE ESCOLA ALEMÃ PARA HOSPEDAGEM. OBJETIVO É IDENTIFICAR COMO ERA A A ROTINA DE NOTÁVEIS COMO FRANZ EHRLICH, MARCEL BREUER, ALFRED ARNDT E HANNES MEYER


Por meio de uma iniciativa da Fundação Bauhaus Dessau, viajantes e/ou entusiastas podem alugar um quarto no Studio Building a partir de 47 dólares a diária. Em Dessau, na Alemanha, o edifício funcionou como dormitório para os estudantes da Bauhaus, escola modernista que revolucionou o pensamento artístico e arquitetônico no século 20.
Quase 90 anos depois, o projeto tem como objetivo reconstituir a vida dos “bauhauslers”, antigos estudantes da instituição, como o artista Joseph Albers, o fotógrafo Walter Peterhans e os designers Herbert Bayer e Joost Schmidt.
Restaurado com base em fotografias do período, o prédio conserva todo o mobiliário original nos dormitórios e áreas de uso comum.


Especificamente, os antigos dormitórios de Franz Ehrlich, Marcel Breuer, Alfred Arndt e Hannes Meyer, com cerca de 24 metros quadrados cada, podem ser alugados a partir de U$ 60 a diária e contam com objetos ou móveis desenhados pelos arquitetos na época.
Inaugurado em 1926, o Studio Building é também chamado de “Prellerhaus”, em referência ao edifício existente no Bauhaus Weimar, nomeado em homenagem ao pintor alemão Friedrich Preller.






Reservas, preços e mais informações estão disponíveis no www.bauhaus-dessau.de.  
Publicada originalmente em ARCOweb em 23 de Outubro de 2013

29 de janeiro de 2014

CONTRA TUDO

Não posso deixar de "manifestar" meus sentimentos de contrariedade pulsante, que insiste em não aceitar com tranquilidade uma estética tão irreverente. Olhar não desagrada, mas também não ama... o que acontece então?
Certa vez li algo como... a arte não só está para a beleza, não nos causa apenas os "óh que lindo". A arte também nos choca, nos causa repulsa, revoltas, nos instiga a sentimentos inexplicáveis. Claro! Evidentemente nos transforma, não nos deixa no estado original. Muda nosso ponto de vista. Se não muda, pelo menos desconcerta.
Obviamente aprendemos a separar o bonito do feio. mas o que é bonito ou feio para cada um, não se discute. Afinal são parâmetros individuais, relacionados aos elementos culturais e simbólicos que cada pessoa vai construindo ao longo de sua história.
Por isso, algumas coisas nos parecem um bálsamo e outras, uma verdadeira tormenta. Pois na arte, isso fica muito evidente e sem afetações posso garantir que ela sempre consegue desconstruir alguma coisa em nós, para em seguida moldar novas estruturas de pensar. 
É... é isso: REFLEXÃO, não sem antes ter sensações. É como dizem, que para quem vê com os olhos do amor... o feio, bonito lhe parece! E acredito no vice-versa!
Estudando um pouquinho sobre os ISMOS da arte, hoje o vencedor foi o DADAÍSMO! Quem nunca foi provocado com a famosíssima "A fonte" de Marcel Duchamp?


Certamente, inúmeros pensamentos povoaram a mente de muitos ao contemplar esta imagem.
Ou então, a famosa "Roda de bicicleta em um banquinho"...



Absurdo para alguns e genialidade para outros. Assim é a arte, sempre controversa e quase na contramão do raciocínio lógico da humanidade.
Pois o Dadaísmo surgiu durante a Primeira Guerra Mundial, no intuito de defender que o conflito havia destruído crenças morais, políticas e estéticas da época. Como se a realidade estruturada e bem organizada não se sustentasse mais no pós guerra. Desconstruir para construir de novo, não apenas para este fim exclusivamente, mas sobretudo para "repensar", "rever conceitos", "refletir" sobre os acontecimentos e o rumo da humanidade.
Transcendendo o conflito real e armado, para o campo filosófico... do pensar. Imaginando a situação de ter o mundo a sua volta totalmente em pedaços e a extensão deste efeito nas perspectivas de vida daquela sociedade.
O uso de materiais não convencionais para fazer arte. A bicicleta e o mictório, por exemplo. Objetos tradicionalmente de uso cotidiano, com finalidade artística... transformados em obras de arte. E mesmo que alguns considerem estas obras como "obras de não arte"... não há como fugir do simbólico que representa e portanto, arte.
Na metade da década de 1920, deu lugar ao Surrealismo.
O primeiro manifesto "Dadá" publicado em 1918, proclamava o dadaísmo como "nova realidade". Um modo de dizer, gritar, manifestar oposição ao sistema social e político estruturado de então. Certa liberdade de pode ver o mundo sob outros ângulos, outras opiniões. Foi como nadar contra uma corrente.
De certa forma foi um movimento que repudiou a academia e suas convenções, de modo a propor um pensamento livre e criador. Instigar a percepção de que o mundo se transforma, o pensamento se transforma... por isso a arte também muda. Dar a consciência de que os padrões e a estética das obras são impermanentes, colocando-os numa posição secundária em relação à arte.
Uma revolução, com certeza.
Então, mais do que chocar e provocar, o movimento mostra que a arte reflete contextos e flutua no tempo e no espaço, de acordo com os "ventos" do comportamento humano.
Não é a arte que domina o homem e sim o homem que domina a arte.
A tática dos dadaístas era o choque. eles esperavam livrar a sociedade do nacionalismo e do materialismo que levou à matança e à destruição da Primeira Guerra Mundial.

Desconcertante e bem interessante, não?

Boa noite!